Conhecimento Antigo Conhecimento Antigo A magia do Conhecimento, a Iluminação dos Deuses
Artigos

As Qliphoth: as “cascas” na Cabala, de Castela a Luria e ao ocultismo

10 min de leitura 8 visualizações

No primeiro artigo desta série vimos as dez sefirot e a Árvore da Vida. Agora olhamos para o seu avesso: as qelipot, as “cascas”, que os textos ocultistas chamam de Qliphoth. O tema costuma vir cercado de sensacionalismo. Aqui ele será tratado como história das ideias, com a distinção entre a Cabala judaica e a construção hermética moderna.

A palavra: qelipá, “casca”

Qelipá (plural qelipot; também grafadas kelipot ou kelippot) significa “casca”, a pele do fruto ou a crosta da árvore. Gershom Scholem, na Encyclopaedia Judaica, explica que o mal foi comparado à casca da árvore da emanação, símbolo vindo de Azriel de Gerona e comum a partir do Zohar. O próprio Zohar usa a imagem da noz, cujas camadas protegem o miolo:

“São todas coberturas umas das outras, cérebro dentro de cérebro e espírito dentro de espírito, de modo que um é casca para o outro.” (Zohar, Bereshit 9:106, tradução nossa da versão inglesa da Soncino)

Note que a casca, aqui, ainda não é pura maldade: é o que envolve e protege. Segundo Scholem, cada princípio intermediário é “casca” do ponto de vista do que está acima dele e “mente” do ponto de vista do que está abaixo.

Castela, século XIII: a “emanação esquerda”

A raiz da ideia está no lado da Árvore ligado ao julgamento. O Sefer ha-Bahir chama Gevurah de “mão esquerda” de Deus, e Isaac, o Cego, na Provença, já admitia, segundo Scholem, uma raiz do mal e da morte dentro do divino, equilibrada pela raiz do bem e da vida. Na segunda metade do século XIII, Isaac ben Jacob ha-Kohen, nascido em Soria, escreveu um tratado sobre a emanação que, nas palavras de Scholem, contém a primeira formulação da doutrina da “emanação esquerda”. O texto foi traduzido para o inglês por Ronald C. Kiener como “Tratado sobre a Emanação Esquerda”, na coletânea organizada por Joseph Dan.

Para Dan, é ali que aparece pela primeira vez, numa obra judaica datável, a descrição de Samael e Lilith como marido e mulher. Discípulo de Isaac ha-Kohen, Moisés de Burgos desenvolveu a mesma linha. O Zohar retomou a ideia com o nome de sitra achra, “o outro lado”, que nele tem dez sefirot próprias. Scholem resume:

“O Outro Lado é o fogo da severidade divina, exteriorizado e tornado independente, onde se torna todo um sistema hierárquico, um contramundo governado por Satã.” (On the Mystical Shape of the Godhead, p. 73, tradução nossa)

Mesmo assim, lembra Scholem, a identificação do mal com a matéria nunca se tornou doutrina oficial, e até no “outro lado” há uma centelha de santidade.

Safed, século XVI: os vasos quebrados

Na Cabala de Isaac Luria, as qelipot ganham papel central na história da criação. A luz divina desceu em “vasos”. Os vasos das três sefirot superiores resistiram; os seis de Chesed a Yesod se partiram, e o de Malkhut rachou. É a shevirat ha-kelim, a “quebra dos vasos”. Dos cacos, explica Scholem na Encyclopaedia Judaica, as qelipot ganharam substância, e centelhas de luz (nitzotzot) ficaram presas entre elas, servindo-lhes de alimento.

Em On the Mystical Shape of the Godhead (p. 77), Scholem diz que essas centelhas são “como cativas” à espera de redenção. A resposta é o tikkun, a restauração, que a Britannica descreve como obra de uma vida mística intensa e de luta constante contra o mal. Os cabalistas discordavam sobre o desfecho: retirar as centelhas destruiria o mal ou o redimiria?

Hassidismo: a casca que brilha

No Tanya, de Shneur Zalman de Liadi (1745–1812), as qelipot viram tema de vida interior. Há três qelipot “totalmente impuras” e uma quarta, a qelipat nogah (no Chabad, kelipat nogah), a “casca que brilha”, porque nela ainda resta um raio de santidade. O exemplo do livro é a comida: quem come carne e bebe vinho para ter a mente disposta ao serviço de Deus eleva a vitalidade desses alimentos; quem come por gula a rebaixa temporariamente. Scholem (p. 78) mostra que o nome vem de uma leitura de Ezequiel 1:4 e que a doutrina já está no fim do Etz Chaim, de Hayyim Vital. Nessas leituras judaicas, de Luria ao Tanya, as qelipot são uma realidade a ser enfrentada e reparada, separando e elevando as centelhas, e não um mundo a ser explorado.

A recepção ocultista

O caminho até o ocultismo passou pelo latim. Em Kabbala Denudata (Sulzbach, 1677–1684), Christian Knorr von Rosenroth traduziu o termo por cortices e o definiu assim:

“Assim se chamam as coisas que estão fora da santidade, isto é, tudo o que no universo é impuro, como os espíritos impuros e semelhantes.” (tradução nossa do latim)

Éliphas Lévi, em Dogme et rituel de la haute magie, repete que, no Zohar, os maus demônios são chamados de “écorces”, cascas. Samuel Liddell MacGregor Mathers, da Golden Dawn, traduziu parte da obra de Knorr em The Kabbalah Unveiled (1887) e escreveu na introdução que as Qliphoth, “cascas materiais”, se dividem em dez classes que respondem às sefirot “em razão inversa”.

Aleister Crowley fixou os nomes em 777 (1909), numa coluna intitulada “Ordens das Qliphoth”, e publicou no Liber 231 os sigilos dos gênios das 22 “celas” das Qliphoth, ligadas às 22 letras e caminhos da Árvore. Dion Fortune, em The Mystical Qabalah (1935), deu a formulação mais citada:

“Não há, de fato, duas Árvores, mas uma só Árvore, sendo a Qliphah o reverso de uma moeda cujo anverso é uma Sephirah.” (cap. XXVI, tradução nossa)

Kenneth Grant levou o tema adiante em Nightside of Eden (1977), associando aos caminhos do Liber 231 o que chamou de “túneis de Set”.

Tabela: as Qliphoth na Qabalah hermética

A tabela abaixo é uma construção moderna do ocultismo ocidental e não faz parte da Cabala judaica, que não atribui uma qelipá a cada sefirá. Os nomes seguem a coluna VIII de 777, que traz só a grafia hebraica, com a transliteração e os significados dados por Crowley na edição revista de 1955. Outros autores usam grafias diferentes.

Sefirá Qliphah Significado segundo Crowley
Keter Thaumiel Gêmeos de Deus
Chokhmah Ghagiel Os que estorvam
Binah Satariel Ocultação
Chesed Gha’agsheklah Os que golpeiam
Gevurah Golachab Os flamejantes
Tiferet Thagiriron O litígio
Netzach A’arab Zaraq Os corvos da dispersão
Hod Samael O falso acusador
Yesod Gamaliel O asno obsceno
Malkhut Lilith A mulher da noite

Crowley explica a lógica: cada nome sugere o vício próprio da sefirá. Thaumiel tem duas cabeças em luta e por isso nega a unidade de Keter.

A sombra como objeto de estudo

Este artigo não ensina rituais de evocação nem trata as Qliphoth como poderes a serem buscados. Estudá-las serve para entender como diferentes tradições pensaram o mal: os cabalistas de Castela, como desequilíbrio do julgamento; Luria, como luz aprisionada à espera de conserto; o Tanya, como matéria-prima de escolhas morais diárias; Fortune, como o lado desequilibrado de cada força. Também vale cuidado com o vocabulário: termos como Samael e Lilith têm história própria na tradição judaica, e lê-los só pela chave ocultista empobrece as duas tradições.

Próximos passos da série

A partir do próximo artigo, a série percorre a Árvore uma sefirá por vez, de Keter a Malkhut, com Da’at tratada num desses artigos.

Tira-dúvidas

Qliphoth e qelipot são a mesma coisa?

É a mesma palavra hebraica em grafias diferentes. Qliphoth é a forma consagrada pelos textos ocultistas; qelipot e kelipot aparecem nos textos judaicos.

A “Árvore das Qliphoth” vem da Cabala judaica?

Não como sistema. A ideia de um “outro lado” com dez graus já está no Zohar, mas a tabela com um nome para cada sefirá é obra do ocultismo dos séculos XIX e XX.

Na Cabala, as qelipot são o diabo?

Não exatamente. No Zohar, o “outro lado” ganha governantes, como Samael; mas as qelipot em si são o que encobre a luz divina. Para Luria, guardam centelhas a serem libertadas; para o Tanya, a qelipat nogah pode ser elevada pelo bom uso das coisas.

Mini-glossário

  • Qelipá (plural: qelipot): “casca”; o que encobre a santidade. No ocultismo, Qliphah e Qliphoth.
  • Sitra achra: “o outro lado”, nome do Zohar para o domínio oposto à santidade.
  • Shevirat ha-kelim: a “quebra dos vasos” na Cabala de Luria.
  • Nitzotzot: centelhas de luz divina presas nas qelipot.
  • Qelipat nogah: a “casca que brilha”, intermediária entre a santidade e as três qelipot impuras.

Bibliografia

CROWLEY, Aleister. 777. London; Felling-on-Tyne: Walter Scott Publishing, 1909. Disponível em: https://keepsilence.org/the-equinox/777/table-of-correspondences_low.pdf. Acesso em: 2 nov. 2026.

CROWLEY, Aleister. 777 revised. London: Neptune Press, 1955. Edição eletrônica: [Leeds]: Celephaïs Press, 2004. Disponível em: https://archive.org/details/aleister-crowley-777-revised. Acesso em: 2 nov. 2026.

CROWLEY, Aleister. Liber Arcanorum τῶν Atu τοῦ Tahuti quas vidit Asar in Amennti sub figura CCXXXI. Hermetic Library, [S. l.], [20--]. Publicado originalmente em The Equinox, v. 1, n. 7, [1912]. Disponível em: https://hermetic.com/crowley/libers/lib231. Acesso em: 2 nov. 2026.

DAN, Joseph. Samael, Lilith, and the concept of evil in early Kabbalah. AJS Review, [Cambridge], v. 5, p. 17-40, 1980. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/1486451. Acesso em: 2 nov. 2026.

FORTUNE, Dion. The mystical Qabalah. London: [Williams and Norgate], 1935. Disponível em: https://archive.org/details/DionFortuneMysticalQabala. Acesso em: 2 nov. 2026.

GRANT, Kenneth. Nightside of Eden. London: Frederick Muller, 1977. Cópia consultada: reimpr. London: Skoob Books, 1995.

ISAAC ben Jacob ha-Kohen. Treatise on the left emanation. Tradução: Ronald C. Kiener. In: DAN, Joseph (ed.). The early Kabbalah. New York: Paulist Press, 1986. p. 165-182. Disponível em: https://www.marquette.edu/maqom/leftemanation.pdf. Acesso em: 2 nov. 2026.

KABBALA. In: ENCYCLOPAEDIA Britannica. [Chicago]: Encyclopaedia Britannica, [20--]. Disponível em: https://www.britannica.com/topic/Kabbala. Acesso em: 2 nov. 2026.

KNORR VON ROSENROTH, Christian. Kabbala denudata: seu doctrina Hebraeorum transcendentalis et metaphysica atque theologica. Sulzbaci [Sulzbach]: typis Abrahami Lichtenthaleri, 1677-1684. 2 t. Disponível em: https://doi.org/10.3931/e-rara-3822. Acesso em: 2 nov. 2026.

LÉVI, Éliphas. Dogme et rituel de la haute magie. Nouv. éd. Paris: Chacornac Frères, 1930. t. 1, p. 143. Disponível em: https://online.flipbuilder.com/bsoc/bndt/files/basic-html/page152.html. Acesso em: 2 nov. 2026.

MATHERS, Samuel Liddell MacGregor. The Kabbalah unveiled. London: [George Redway], 1887. Disponível em: https://sacred-texts.com/book/kabbala-denudata-the-kabbalah-unveiled/introduction. Acesso em: 2 nov. 2026.

SCHOLEM, Gershom. Isaac ben Jacob ha-Kohen. In: ENCYCLOPAEDIA Judaica. 2. ed. [Detroit: Macmillan Reference USA, 2007]. Disponível em: https://www.encyclopedia.com/religion/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/isaac-ben-jacob-ha-kohen. Acesso em: 2 nov. 2026.

SCHOLEM, Gershom. Kabbalah. In: ENCYCLOPAEDIA Judaica. 2. ed. [Detroit: Macmillan Reference USA, 2007]. Disponível em: https://www.encyclopedia.com/religion/encyclopedias-almanacs-transcripts-and-maps/kabbalah. Acesso em: 2 nov. 2026.

SCHOLEM, Gershom. On the mystical shape of the Godhead: basic concepts in the Kabbalah. Tradução: Joachim Neugroschel. Edição: Jonathan Chipman. New York: Schocken Books, 1991.

SHNEUR ZALMAN, de Liadi. Likutei Amarim: capítulo 7. Elucidação de Yosef Wineberg. Tradução de Levy Wineberg e Sholom B. Wineberg. Edição de Uri Kaploun. Brooklyn: Kehot Publication Society, [20--]. Disponível em: https://www.chabad.org/library/tanya/tanya_cdo/aid/803842/jewish/Chapter-7.htm. Acesso em: 2 nov. 2026.

ZOHAR. Bereshit 9:104-9:109. Tradução: Harry Sperling e Maurice Simon. London: Soncino Press, 1931. v. 1. Disponível em: https://www.sefaria.org/Zohar%2C_Bereshit.9.106. Acesso em: 2 nov. 2026.

Sobre o autor

Fundador e editor do Conhecimento Antigo

Allan Lima é fundador e editor do Conhecimento Antigo. Estuda espiritualidade desde 2007 e criou o site em 2010 para ajudar quem está começando.