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Houdini, 100 anos: o mágico que pedia provas aos espíritos

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Palco de vaudeville iluminado, com cortinas de veludo vermelho e franjas douradas e uma fileira de luzes de ribalta. À esquerda há um tanque de vidro com água para fugas; no centro-esquerda, um baú de couro envolto em correntes, com cadeado e algemas no chão. Na parede do fundo, sob o foco de luz, está pendurado um retrato em sépia de Harry Houdini, de terno e gravata-borboleta, numa moldura dourada.

Foto: Harry Houdini, c. 1913, retrato de Campbell-Gray, Ltd. Library of Congress (LCCN 96518835), domínio público. Montagem: Conhecimento Antigo.

Um centenário no Halloween

Harry Houdini morreu em 31 de outubro de 1926, em Detroit, aos 52 anos, segundo a Britannica. Nos últimos anos de vida, ele cobrou provas de quem dizia falar com os mortos e, ao mesmo tempo, deixou com a esposa um teste para o caso de existir comunicação depois da morte.

Quem foi Houdini

Ele nasceu Erik Weisz, em Budapeste, em 24 de março de 1874 (grafia da Britannica e da Biblioteca do Congresso dos EUA; há quem escreva Erich ou Ehrich). O pai era rabino, e a família emigrou para os Estados Unidos quando ele tinha cerca de quatro anos, conforme Neely Tucker no blog da Biblioteca do Congresso. Em 1894 ele se casou com Wilhelmina Rahner, que, como Beatrice ou Bess Houdini, foi também sua parceira de palco.

A cruzada contra os médiuns

Segundo Tucker, a campanha ganhou força depois da morte da mãe de Houdini, em 1913. No livro A Magician Among the Spirits (1924), o próprio Houdini conta que, jovem, deu sessões como “médium” e enganou clientes por diversão, e que só entendeu a gravidade disso quando viveu o luto: brincar com a saudade alheia, escreveu, “beirava o crime”. Na mesma introdução ele afirma crer num Ser Supremo e numa vida futura e relata pactos com 14 pessoas para que quem morresse primeiro desse notícia. Nenhuma deu.

O caso que mais pesou envolveu Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes e espiritualista convicto. Em 17 de junho de 1922, num hotel de Atlantic City, Lady Doyle fez para Houdini uma sessão de escrita automática e produziu páginas atribuídas à mãe dele. Houdini não acreditou: a mensagem estava em inglês, língua que a mãe não lia nem escrevia, e ignorava que aquele dia era o aniversário dela. A amizade azedou em público.

Houdini integrava a comissão da revista Scientific American que oferecia US$ 2.500 a quem provasse fenômenos sobrenormais. Em 1924, a candidata mais forte foi “Margery”, pseudônimo de Mina Crandon, de Boston, mulher do médico Le Roi G. Crandon, como registram o programa American Experience, da PBS, e o New York Times. Segundo o jornal de 12 de fevereiro de 1925, quatro dos cinco jurados negaram o prêmio, e só Hereward Carrington votou a favor. Houdini acusou fraude; três colegas não viram nada sobrenatural, mas negaram que ele tivesse exposto algum truque. O jornal registrou um detalhe útil: quanto mais rígidos os controles, mais fracos os fenômenos.

Em 26 de fevereiro de 1926, Houdini depôs na Câmara dos Representantes dos EUA a favor de um projeto (H.R. 8989) contra quem cobrasse para ler a sorte em Washington. Disse que não atacava religião alguma e que respeitava todo crente sincero, mas no mesmo depoimento tratou toda a mediunidade que conhecia como fraude, com palavras duras. A lição de discernimento está nos métodos (pedir controles, verificar se a informação já era pública, desconfiar de quem transforma o luto em cobrança), não no desprezo. Vale lembrar que o Espiritualismo anglo-americano que ele investigou não é o mesmo que o Espiritismo como se organizou no Brasil.

O pacto com Bess e as sessões de Halloween

Houdini e Bess combinaram que quem morresse primeiro tentaria falar com o outro. A prova seria um código: a palavra “Rosabelle” seguida de uma sequência de palavras de um código que o casal usava no palco, que, decifrada, formava “Believe” (acredite). Segundo Mark Dimunation, da Biblioteca do Congresso, muitos médiuns anunciaram mensagens dele, sem a senha.

A exceção polêmica veio em janeiro de 1929. Conforme o New York Times de 10 de janeiro de 1929, o médium Arthur Ford, em transe na casa de Bess, transmitiu dez palavras em código que formavam “believe”, e ela declarou que o teste fora cumprido. Bess se recuperava de uma queda e, segundo o jornal, tinha momentos de delírio. O mágico Joseph Dunninger disse que ela admitira que o código havia sido publicado um ano antes no livro Houdini: His Life-Story, de Harold Kellock. A Magicpedia, da revista Genii, registra que o New York Evening Graphic chamou a sessão de farsa e publicou que Ford confessara ter obtido o código com Bess, acusação que a Magicpedia considera falsa; anos depois, o testamenteiro literário e o biógrafo do médium acreditaram ter achado sinais de armação.

A última tentativa pública aconteceu em 31 de outubro de 1936, no terraço do Knickerbocker Hotel, em Hollywood, diante de cerca de 300 convidados. Depois dos apelos de Edward Saint, empresário de Bess, ela anunciou: “Houdini não se manifestou. Minha última esperança acabou”. Segundo Dimunation, em 1943, já perto da morte, Bess disse que dez anos eram tempo suficiente para esperar por qualquer homem.

Há divergência sobre o que veio antes. Dimunation escreve que o grupo se reunia a cada Halloween desde a morte de Houdini. John Cox, do site Wild About Harry, sustenta que a sessão de 1936 parece ter sido a primeira de Bess num Halloween (as anteriores que ele localizou foram na primavera) e que o prazo de dez anos provavelmente foi criado para aquela noite. Para quem vive a data pela Roda do Ano, veja nosso post sobre o Samhain 2026.

Mágica de palco e magia

Diante do Congresso, Houdini se apresentou como investigador psíquico e “artista misterioso”, sem alegar poderes. O ilusionismo é uma arte de engano declarado: o público sabe que existe um método e aceita não vê-lo. A fraude mediúnica usa técnicas parecidas, mas esconde esse acordo e pede fé (às vezes dinheiro) onde há truque. A magia ritual e espiritual é outra coisa: um sistema simbólico e devocional, que não se propõe a produzir efeitos visuais para uma plateia. Explicamos essas correntes em Os Diferentes Tipos de Magia.

A morte e suas versões

A versão clássica: em 22 de outubro de 1926, no camarim do Princess Theatre, em Montreal, o estudante J. Gordon Whitehead, da Universidade McGill, socou o abdome de Houdini para testar sua famosa resistência. Ele já se sentia mal. Em Detroit, adiou o hospital para não cancelar shows e só foi operado em 25 de outubro, com o apêndice rompido e peritonite. Morreu em 31 de outubro. É a sequência reconstruída por Adam Begley no blog da Yale University Press e retomada por Giovanna Csiszar na CNN Brasil, em 23 de outubro de 2026.

Begley, porém, afirma que o soco não causou a apendicite, que é uma infecção bacteriana, e que ninguém sobreviveria nove dias com o apêndice rompido. Tucker acrescenta, com base em Begley, que o seguro de vida pagava em dobro por morte acidental, o que dava à viúva um motivo para sustentar a história do soco.

Em 2006, William Kalush e Larry Sloman, em The Secret Life of Houdini, sugeriram envenenamento por inimigos espiritualistas. Em 2007, a Associated Press, via CBS News, noticiou que o sobrinho-neto George Hardeen queria exumar o corpo; não houve autópsia, e o atestado só foi registrado em 20 de novembro de 1926.

A versão mais recente é da uróloga aposentada Larrian Gillespie, no livro Houdini: The Man Who Died Twice. Segundo reportagem de Robin Pogrebin para o New York Times, republicada pelo Infobae em 24 de outubro de 2026, ela atribui a morte a uma obstrução intestinal após uma refeição de chop suey em 28 de outubro, seguida de uma cirurgia de emergência em 29 de outubro e de choque séptico. Para Gillespie, Houdini morreu em 30 de outubro, às 13h26, e os documentos foram alterados; ela também inocenta Whitehead. Cox, que a ajudou na pesquisa, concluiu em sua resenha que o mistério continua. Nenhuma versão tem a palavra final.

Tira-dúvidas

Houdini era contra o Espiritualismo? Ele dizia que não atacava a religião, e sim médiuns que considerava fraudulentos, embora generalizasse.

Alguém recebeu o código? Arthur Ford disse ter recebido em 1929, mas o código já tinha sido publicado.

Houdini morreu mesmo em 31 de outubro? É a data oficial; Gillespie defende 30/10.

De onde vem o nome Houdini? Do mágico francês Jean-Eugène Robert-Houdin.

Mini-glossário

Espiritualismo: movimento religioso anglo-americano que crê na comunicação com os mortos por meio de médiuns.

Médium: pessoa que afirma servir de canal entre os vivos e os espíritos.

Sessão (séance): reunião em que um médium tenta estabelecer contato com os mortos.

Ilusionismo: arte cênica de efeitos aparentemente impossíveis obtidos por meios naturais.

Peritonite: inflamação do peritônio, a membrana que reveste o abdome, em geral por infecção.

Bibliografia

AMERICAN EXPERIENCE. Margery pamphlet. American Experience, [S. l.]: PBS, 5 mar. 2019. Disponível em: https://www.pbs.org/wgbh/americanexperience/features/houdini-margery-pamphlet/. Acesso em: 29 out. 2026.

BEGLEY, Adam. Did Houdini really die after being sucker punched? Yale University Press, New Haven, 11 mar. 2020. Disponível em: https://yalebooks.yale.edu/2020/03/11/did-houdini-really-die-after-being-sucker-punched/. Acesso em: 29 out. 2026.

COX, John. Halloween 1936: the final Houdini seance. Wild About Harry, [S. l.], 31 out. 2014. Disponível em: https://www.wildabouthoudini.com/2014/10/halloween-1936-final-houdini-seance.html. Acesso em: 29 out. 2026.

COX, John. Houdini: the man who (allegedly) died twice. Wild About Harry, [S. l.], 17 jul. 2026. Disponível em: https://www.wildabouthoudini.com/2026/07/houdini-man-who-allegedly-died-twice.html. Acesso em: 29 out. 2026.

CSISZAR, Giovanna. Ele passou a vida desmascarando médiuns, levou um soco de um estudante e morreu no Halloween: a história de Houdini, o mágico mais famoso da história. CNN Brasil, São Paulo, 23 out. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/curiosidades/ele-passou-a-vida-desmascarando-mediuns-levou-um-soco-de-um-estudante-e-morreu-no-halloween-a-historia-de-houdini-o-magico-mais-famoso-da-historia/. Acesso em: 29 out. 2026.

DIMUNATION, Mark. Hollywood, Houdini and the Halloween seance of 1936. Timeless: blog da Library of Congress, Washington, 30 out. 2020. Disponível em: https://blogs.loc.gov/loc/2020/10/hollywood-houdini-and-the-halloween-seance-of-1936/. Acesso em: 29 out. 2026.

ESTADOS UNIDOS. Congress. House. Committee on the District of Columbia. Judiciary Subcommittee. Fortune telling: hearings on H.R. 8989, February 26, May 18, 20, and 21, 1926. Washington: Government Printing Office, 1926. Disponível em: https://commonplacefacts.com/wp-content/uploads/2024/06/1926__congressional_hearings___fortune_telling.pdf. Acesso em: 29 out. 2026.

GILLESPIE, Larrian. Houdini: the man who died twice. [S. l.]: Cipher House Books, 2026. [Obra não consultada diretamente; dados conforme Pogrebin, 2026.]

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HOUDINI, Harry. A magician among the spirits. New York; London: Harper & Brothers, 1924. Disponível em: https://archive.org/details/magicianamongspi00houd. Acesso em: 29 out. 2026.

HOUDINI poisoned? Kin wants exhumation. CBS News, New York, 23 mar. 2007. Texto da Associated Press. Disponível em: https://www.cbsnews.com/news/houdini-poisoned-kin-wants-exhumation/. Acesso em: 29 out. 2026.

HOUDINI’S friends doubt ‘message’: freethinker offers $25,000 for a “spirit communication” with magician. The New York Times, New York, 10 jan. 1929. Disponível em: https://www.nytimes.com/1929/01/10/archives/houdinis-friends-doubt-message-freethinker-offers-25000-for-a.html. Acesso em: 29 out. 2026. Transcrição disponível em: https://www.intervalmagic.com/houdini/articles/1929_01.10.html.

KALUSH, William; SLOMAN, Larry. The secret life of Houdini: the making of America’s first superhero. New York: Atria Books, 2006. [Obra não consultada diretamente; conteúdo conforme Houdini poisoned?, 2007.]

KELLOCK, Harold. Houdini, his life-story: from the recollections and documents of Beatrice Houdini. New York: Harcourt, Brace & Company, 1928.

‘MARGERY’S’ spirits fail to win prize: Scientific American committee holds she produced no supernormal phenomena. The New York Times, New York, 12 fev. 1925. Disponível em: https://www.nytimes.com/1925/02/12/archives/-margerys-spirits-fail-to-win-prize-scientific-american-committee.html. Acesso em: 29 out. 2026. Transcrição disponível em: https://intervalmagic.com/houdini/articles/1925_02.12.html.

POGREBIN, Robin. Houdini died on Halloween 100 years ago. Some still question how. The New York Times, New York, 20 out. 2026. Disponível em: https://www.nytimes.com/2026/10/20/arts/houdini-death-mystery.html. Acesso em: 29 out. 2026.

POGREBIN, Robin. Houdini murió en Halloween hace 100 años: una médica reabrió el caso y cuestiona la versión oficial de su muerte. Infobae, [S. l.], 24 out. 2026. Publicado originalmente em The New York Times. Disponível em: https://www.infobae.com/cultura/2026/10/24/houdini-murio-en-halloween-hace-100-anos-una-medica-reabrio-el-caso-y-cuestiona-la-version-oficial-de-su-muerte/. Acesso em: 29 out. 2026.

THE HOUDINI code. In: MAGICPEDIA. [S. l.]: Genii Magazine, 7 abr. 2013. Disponível em: https://wiki.geniimagazine.com/index.php?title=The_Houdini_Code. Acesso em: 29 out. 2026.

TUCKER, Neely. Death of the magician: 100th anniversary of Houdini’s tragic death. Timeless: blog da Library of Congress, Washington, 28 out. 2026. Disponível em: https://blogs.loc.gov/loc/2026/10/death-of-the-magician-100th-anniversary-of-houdinis-tragic-death/. Acesso em: 29 out. 2026.

Sobre o autor

Fundador e editor do Conhecimento Antigo

Allan Lima é fundador e editor do Conhecimento Antigo. Estuda espiritualidade desde 2007 e criou o site em 2010 para ajudar quem está começando.