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Civilizações Antigas

Caça às bruxas na Europa (1300–1850): números, causas e mitos

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Mesa de pedra e madeira com um livro antigo aberto, um martelo de juiz, uma chave de ferro e uma vela apagada sob a luz fria da janela.

Em 1782, no cantão suíço de Glarus, a empregada doméstica Anna Göldi foi decapitada depois de um processo em que foi acusada de enfeitiçar a filha de oito anos do patrão. É a última execução legal por bruxaria conhecida na Europa Ocidental. Em 2008, o governo de Glarus a declarou inocente, segundo a swissinfo.ch.

O caso de Göldi encerra uma longa história que começa no fim da Idade Média. Este post faz parte do mapa apresentado em Magia e espiritualidade nas civilizações antigas: um mapa para começar e vem depois do texto sobre a magia no Ocidente medieval [em breve].

Da feitiçaria ao pacto com o Diabo

Acusações de magia maléfica existiam havia muito tempo. No fim da Idade Média surgiu a ideia de que a bruxa faria um pacto com o Diabo e receberia dele o poder de causar dano. O historiador Ronald Hutton, em The Witch: A History of Fear, from Ancient Times to the Present (2017), situa as primeiras execuções baseadas nesse conceito na década de 1420, nos Pireneus e em Roma.

O livro mais famoso sobre o tema veio pouco depois. O Malleus Maleficarum (“O martelo das bruxas”) foi escrito pelo inquisidor dominicano Heinrich Kramer. A primeira edição saiu da oficina de Peter Drach, em Speyer, e já estava à venda em fevereiro de 1487, segundo os registros do impressor analisados por Christopher S. Mackay, seu tradutor para o inglês. O nome do teólogo Jacob Sprenger aparece como coautor, mas a participação dele é discutida. Mackay lembra que o livro nasceu, em parte, de um processo fracassado: em 1485, Kramer acusou mulheres em Innsbruck, e o bispo de Brixen acabou intervindo e encerrando o caso.

Os números reais

As estimativas de mortos caíram muito nas últimas décadas, à medida que os arquivos regionais foram estudados.

Brian P. Levack, em The Witch-Hunt in Early Modern Europe, calcula cerca de 90 mil processos por bruxaria na Europa. Na terceira edição (2006), ele reduziu sua estimativa de execuções de 60 mil para cerca de 45 mil. Peter Leeson e Jacob Russ citam um consenso de 100 a 110 mil pessoas julgadas entre cerca de 1400 e 1750, metade delas executadas. Hutton fala em 40 a 60 mil pessoas executadas legalmente entre a década de 1420 e 1782, com o número real provavelmente na metade inferior dessa faixa.

Segundo Hutton, em The Witch, a grande maioria das vítimas morreu entre 1560 e 1640. O centro foi o Sacro Império Romano-Germânico: Wolfgang Behringer estimou, em 1998, um mínimo de 30 mil execuções na Europa, mais de 20 mil delas no território da Alemanha atual. A maioria das vítimas eram mulheres, cerca de três quartos dos acusados segundo Levack.

Tribunais seculares e Inquisição

Na imagem popular, a Inquisição acende quase todas as fogueiras. A economista Emily Oster resume o consenso: os primeiros processos, desde o século XIII, foram obra de instituições da Igreja, mas a grande massa dos julgamentos posteriores teve “muito pouco envolvimento formal” desse tipo. A maioria das sentenças saiu de tribunais seculares locais, de cidades, senhorios e principados.

A Inquisição espanhola é o exemplo mais estudado. Gustav Henningsen, em The Witches’ Advocate, reconstitui o grande processo de Logroño: no auto de fé de 1610, seis pessoas foram queimadas vivas e cinco em efígie (representadas por bonecos, porque já tinham morrido na prisão). Em 1611, o inquisidor Alonso de Salazar Frías percorreu a região e reuniu 1.802 confissões, 1.384 delas de crianças. Seu exame cético dos casos levou às instruções de 1614, que tornaram as provas tão exigentes que os processos praticamente pararam. Hutton chama de “notavelmente branda” a atuação das inquisições do Mediterrâneo, inclusive a romana: em Veneza, mais de seiscentos processos ligados à magia entre 1550 e 1650 não terminaram em nenhuma execução.

Por que aconteceu? Três explicações

A primeira explicação envolve clima e fome. Behringer, no artigo “Climatic Change and Witch-Hunting” (1999), associou as grandes ondas de perseguição à Pequena Idade do Gelo, o período de temperaturas mais baixas que vai, aproximadamente, do século XIV ao XIX. Geadas, granizo e colheitas perdidas geravam pedidos de punição contra quem supostamente controlava o tempo. Em 2004, Oster testou essa ideia com dados de onze regiões europeias. Encontrou mais julgamentos nos períodos mais frios e nas regiões de crescimento econômico mais lento, e interpretou as bruxas como bodes expiatórios de crises de alimentos.

A segunda envolve competição religiosa. No artigo “Witch Trials” (2018), Leeson e Russ tratam católicos e protestantes como concorrentes num “mercado religioso”. Onde a Reforma deixou territórios disputados, as duas igrejas competiriam por fiéis mostrando-se protetoras eficazes contra o Diabo, e os julgamentos funcionariam como vitrine dessa proteção. Eles reuniram dados sobre mais de 43 mil pessoas julgadas em 21 países europeus entre 1300 e 1850, e sobre mais de 400 conflitos entre católicos e protestantes. Concluíram que a disputa confessional explica melhor a intensidade dos julgamentos do que o clima, a renda ou a capacidade do Estado.

A terceira recusa uma causa única. As duas linhas não se excluem, e historiadores como Levack insistem que a caça às bruxas dependeu de vários fatores ao mesmo tempo: a nova teoria demonológica, o uso da tortura, a autonomia dos tribunais locais e as tensões das aldeias.

O mito dos “9 milhões”

Behringer reconstituiu a origem do número mais repetido sobre o tema no artigo “Neun Millionen Hexen” (1998). Gottfried Christian Voigt, jurista a serviço da cidade de Quedlinburg, escreveu sobre os processos de bruxaria num ensaio concluído em 1783 e publicado em 1784 na Berlinische Monatsschrift. Ele encontrou no arquivo local 30 condenações à morte entre 1569 e 1598, supôs que tinham sido pelo menos 40, multiplicou por séculos e pela população estimada da Europa cristã e chegou a 9.442.994 vítimas em onze séculos.

Em 1869, o teólogo Gustav Roskoff arredondou o número para “cerca de nove milhões” em sua Geschichte des Teufels (“História do Diabo”), e a origem do cálculo se perdeu. Em 1934, em meio à campanha nazista contra as igrejas, Mathilde Ludendorff retomou a cifra num panfleto. Behringer registra ainda que a tradução alemã de um livro de Gerald Gardner, de 1965, trazia os “nove milhões” na introdução da tradutora, embora o número não esteja no texto de Gardner. A partir dos anos 1970, segundo Behringer, o feminismo radical, com impulso vindo dos Estados Unidos, trouxe a cifra de volta e chegou a inflá-la.

O fim

As execuções diminuíram ao longo do século XVII e quase cessaram no XVIII. Na Grã-Bretanha, a lei de 1735 deixou de tratar a bruxaria como crime real e passou a punir quem fingisse praticá-la. O caso de Göldi causou escândalo porque parecia coisa de outra época. O recorte desta série vai até 1850 por escolha editorial, para incluir o período em que as leis contra a bruxaria foram abolidas. Nenhuma execução legal posterior à de Anna Göldi, em 1782, está confirmada.

O próximo post do bloco trata do Brasil colonial e da Inquisição portuguesa [em breve].

Tira-dúvidas

Quantas pessoas foram executadas como bruxas na Europa?

Entre 40 e 60 mil, segundo Hutton, e cerca de 45 mil, segundo Levack. O número de 9 milhões vem de um cálculo sem base feito por Voigt em 1783.

A Inquisição queimou a maioria das bruxas?

Não. A maior parte das condenações saiu de tribunais seculares locais. A Inquisição espanhola, depois de Logroño (1610), tornou-se muito cautelosa.

Onde a perseguição foi mais intensa?

No Sacro Império Romano-Germânico. Behringer conta mais de 20 mil execuções só no território da Alemanha atual.

Quem foi a última pessoa executada por bruxaria?

Anna Göldi, decapitada em Glarus, na Suíça, em 1782, é considerada a última execução legal na Europa Ocidental.

Mini-glossário

  • Malleus Maleficarum: tratado sobre bruxaria de Heinrich Kramer, impresso em Speyer em 1486/1487.
  • Tribunal secular: tribunal de um poder civil, como uma cidade ou um príncipe.
  • Auto de fé: cerimônia pública em que a Inquisição lia as sentenças dos condenados.
  • Pequena Idade do Gelo: período de temperaturas mais baixas na Europa, aproximadamente entre os séculos XIV e XIX.
  • Sacro Império Romano-Germânico: conjunto de territórios da Europa Central, sobretudo alemães, sob um imperador eleito.

Bibliografia

BEHRINGER, Wolfgang. Climatic Change and Witch-Hunting: The Impact of the Little Ice Age on Mentalities. Climatic Change, v. 43, n. 1, p. 335–351, 1999.

BEHRINGER, Wolfgang. Neun Millionen Hexen: Entstehung, Tradition und Kritik eines populären Mythos. Geschichte in Wissenschaft und Unterricht, v. 49, p. 664–685, 1998.

HENNINGSEN, Gustav. The Witches’ Advocate: Basque Witchcraft and the Spanish Inquisition (1609–1614). Reno: University of Nevada Press, 1980.

HUTTON, Ronald. The Witch: A History of Fear, from Ancient Times to the Present. New Haven; Londres: Yale University Press, 2017.

LEESON, Peter T.; RUSS, Jacob W. Witch Trials. The Economic Journal, v. 128, n. 613, p. 2066–2105, ago. 2018. DOI: 10.1111/ecoj.12498.

LEVACK, Brian P. The Witch-Hunt in Early Modern Europe. 3. ed. Harlow: Pearson Longman, 2006.

MACKAY, Christopher S. (trad.). The Hammer of Witches: A Complete Translation of the Malleus Maleficarum. Cambridge: Cambridge University Press, 2009.

OSTER, Emily. Witchcraft, Weather and Economic Growth in Renaissance Europe. Journal of Economic Perspectives, v. 18, n. 1, p. 215–228, 2004.

SWISSINFO.CH. “Last witch in Europe” cleared. 27 ago. 2008. Disponível em: https://www.swissinfo.ch/eng/culture/last-witch-in-europe-cleared/662078.