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Civilizações Antigas

Grécia Antiga: deuses, oráculos e mistérios

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Altar de pedra com coroa de louros, tripe de bronze com fumaça e lamparina diante de colunas dóricas ao entardecer.

Num altar diante de um templo grego, um animal era sacrificado, a carne era assada e dividida entre os presentes, e os ossos envoltos em gordura queimavam para os deuses. A fumaça subia, e o banquete descia para os humanos. O poeta Hesíodo, por volta de 700 a.C., contou na Teogonia a origem dessa divisão: em Mecone, o titã Prometeu enganou Zeus, que escolheu os ossos cobertos de gordura e deixou a carne para a humanidade. O historiador Walter Burkert, em Greek Religion, usa esse mito para explicar o lugar do sacrifício no centro da religião grega.

Este post faz parte do mapa apresentado em Magia e espiritualidade nas civilizações antigas: um mapa para começar. Na ordem da série, a Grécia vem depois de Göbekli Tepe, da Mesopotâmia e do Egito.

Uma religião sem livro sagrado

A religião grega não tinha um livro sagrado, um credo fixo nem uma igreja. O historiador francês Jean-Pierre Vernant, em Mito e religião na Grécia antiga, a descreve como uma religião cívica, presa às instituições da cidade e voltada para a vida neste mundo, sem dogma e sem um clero separado da sociedade. Os sacerdotes e sacerdotisas cuidavam de um santuário ou de um culto, muitas vezes por um período limitado, e podiam ser cidadãos comuns escolhidos para isso.

O que unia os gregos eram os mitos, contados por poetas como Homero e Hesíodo, e os ritos, repetidos em cada cidade. Os mitos mudavam de um lugar para outro, e cada cidade tinha os seus cultos e o seu calendário.

A palavra grega para o vínculo com os deuses era eusebeia, a piedade. Ser piedoso era cumprir os sacrifícios, as oferendas e as festas no tempo certo, do jeito certo.

Os deuses e os heróis

Os deuses do Olimpo eram doze na lista mais conhecida, mas a lista mudava conforme a cidade. Zeus reinava sobre eles. Atena protegia Atenas, Apolo era o deus da profecia e da música, e Ártemis, sua irmã gêmea, era a senhora dos animais selvagens e da caça, tema de Ártemis, a deusa da caça e da natureza selvagem.

Em geral, os gregos distinguiam esses deuses do céu dos deuses ctônicos, ligados à terra e ao mundo dos mortos. Burkert trata essa separação como uma tendência, com muitas exceções, e não como uma regra fixa. Hades reinava no submundo, ao lado de Perséfone, a filha de Deméter, assunto de Perséfone, rainha do submundo e senhora das estações. Os sacrifícios às divindades ctônicas costumavam ser feitos à noite, em altares baixos ou em fossos, e a vítima era queimada inteira.

Havia ainda os heróis, homens e mulheres de um passado lendário que recebiam culto junto aos seus túmulos. Héracles, Teseu e muitos heróis locais eram honrados com oferendas, porque se acreditava que continuavam a agir em favor da cidade.

Festas e oráculos

O calendário grego era cheio de festas. Em Atenas, as Panateneias homenageavam Atena com uma procissão até a Acrópole, onde a deusa recebia um manto novo. As Antestérias, no fim do inverno, abriam os jarros de vinho novo e, segundo Burkert, eram também dias em que se acreditava que os mortos andavam pela cidade.

Para saber a vontade dos deuses, os gregos consultavam oráculos. O mais famoso era o de Apolo em Delfos, onde a Pítia, uma sacerdotisa, respondia às perguntas sentada sobre uma trípode. Em Dodona, no noroeste da Grécia, Zeus falava pelo farfalhar de um carvalho sagrado. Cidades consultavam os oráculos antes de fundar colônias ou ir à guerra, e pessoas comuns perguntavam sobre casamento, viagens e dívidas.

Burkert descreve como funcionava a consulta em Delfos. Quem vinha perguntar pagava uma taxa, o pelanos, originalmente um bolo sagrado oferecido no altar e depois um valor em dinheiro. Antes da sessão, os sacerdotes sacrificavam uma cabra, depois de borrifá-la com água fria: se o animal não estremecesse, o deus não queria falar naquele dia. Em épocas mais antigas, muitas respostas eram dadas em versos, e, segundo Burkert, provavelmente cabia aos sacerdotes do santuário dar forma métrica às palavras da Pítia; no tempo de Plutarco, elas já vinham em prosa. O site tem uma seção inteira sobre oráculos.

Burkert também descreve os adivinhos, os manteis, que liam o fígado das vítimas sacrificadas e o voo das aves e acompanhavam os exércitos nas campanhas.

Os mistérios

Ao lado da religião da cidade, existiam cultos de mistério, abertos a quem passasse por uma iniciação. O nome vem do verbo myein, “fechar” (os olhos ou a boca), de onde vêm mystes, o iniciado, e mystērion. A própria palavra lembrava a regra principal: o iniciado devia manter a boca fechada sobre o que tinha visto.

Os mais famosos eram os de Elêusis, perto de Atenas, dedicados a Deméter e Perséfone. O Hino Homérico a Deméter conta o mito por trás deles: Hades rapta Perséfone, Deméter procura a filha e, em luto, faz a terra parar de produzir, até que Perséfone volta a passar parte do ano com a mãe. O mesmo hino promete uma sorte melhor depois da morte a quem viu os ritos. Burkert observa, em Greek Religion, que o segredo foi tão bem guardado que até hoje não se sabe exatamente o que os iniciados viam.

Outros grupos, ligados a Dioniso e ao poeta mítico Orfeu, também prometiam purificação e um destino melhor para a alma.

E a magia?

Fritz Graf, em Magic in the Ancient World, mostra que a palavra mageia vem dos magos, os sacerdotes persas, e que os gregos a usavam com desconfiança. Outra palavra, goēs, designava o feiticeiro ligado ao lamento pelos mortos e aos encantamentos. Graf cita Platão, que na República reclamava de sacerdotes ambulantes que ofereciam aos ricos purificações e feitiços contra inimigos.

Mesmo assim, a magia era comum. A prática mais bem documentada são as tabuinhas de maldição, chamadas em grego de katadesmoi: finas placas de chumbo com o nome de um rival, enroladas, às vezes furadas com um prego, e depositadas em túmulos, poços ou santuários. Christopher Faraone, no ensaio “The Agonistic Context of Early Greek Binding Spells”, publicado em Magika Hiera, livro que ele organizou com Dirk Obbink, mostra que essas tabuinhas apareciam sobretudo em situações de disputa, como processos, competições, negócios e rivalidades amorosas.

Daniel Ogden, em Magic, Witchcraft and Ghosts in the Greek and Roman Worlds, reúne traduções dessas tabuinhas, de receitas de amuletos e de textos sobre a consulta aos mortos, a necromancia. O título Magika Hiera resume o que esses estudos indicam: na Grécia, magia e religião se misturavam o tempo todo.

Os próximos posts da série tratam dos deuses do Olimpo, de Delfos, dos Mistérios de Elêusis, das tabuinhas de maldição e de Hécate [em breve].

Tira-dúvidas

Os gregos acreditavam literalmente nos mitos?

Segundo Vernant, em Mito e religião na Grécia antiga, os mitos variavam de cidade para cidade e de poeta para poeta, sem uma versão oficial, e já na Antiguidade filósofos criticavam algumas histórias. O que todos compartilhavam eram os ritos e os sacrifícios.

Havia sacerdotes profissionais na Grécia?

Havia sacerdotes e sacerdotisas, mas, segundo Vernant e Burkert, eles não formavam uma casta separada nem ensinavam uma doutrina. Muitos exerciam o cargo por tempo limitado.

O que acontecia nos Mistérios de Elêusis?

Sabe-se que havia procissão, jejum, purificação e uma cerimônia noturna no santuário. O que os iniciados viam lá dentro continua desconhecido, porque o segredo foi mantido.

Mini-glossário

  • Eusebeia: a piedade grega, entendida como o cumprimento correto dos ritos.
  • Ctônico: relativo à terra e ao mundo dos mortos, em oposição aos deuses do céu.
  • Pítia: a sacerdotisa que dava as respostas de Apolo no oráculo de Delfos.
  • Mystes: a pessoa iniciada num culto de mistério.
  • Katadesmos: tabuinha de maldição feita para “amarrar” um rival; em latim, defixio.

Bibliografia

BURKERT, Walter. Greek Religion. Tradução de John Raffan. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1985. Original: Griechische Religion der archaischen und klassischen Epoche. Stuttgart: Kohlhammer, 1977.

FARAONE, Christopher A. The Agonistic Context of Early Greek Binding Spells. In: FARAONE, Christopher A.; OBBINK, Dirk (org.). Magika Hiera: Ancient Greek Magic and Religion. Nova York: Oxford University Press, 1991.

GRAF, Fritz. Magic in the Ancient World. Tradução de Franklin Philip. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1997.

OGDEN, Daniel. Magic, Witchcraft and Ghosts in the Greek and Roman Worlds: A Sourcebook. Oxford: Oxford University Press, 2002.

VERNANT, Jean-Pierre. Mito e religião na Grécia antiga. Tradução de Joana Angélica D’Avila Melo. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2006.