A Cabala é a tradição mística do judaísmo. A palavra hebraica qabbalah quer dizer “aquilo que é recebido”, isto é, a tradição transmitida de mestre a discípulo, como lembram Kaufmann Kohler e Louis Ginzberg na Jewish Encyclopedia e o rabino DovBer Pinson em texto publicado pelo Chabad.org. Segundo a Encyclopaedia Britannica, a Cabala aparece como corrente definida a partir do século XII e sempre foi, em essência, uma tradição oral: a iniciação em suas doutrinas era conduzida por um guia pessoal, para evitar os perigos atribuídos à experiência mística. Este artigo abre uma série do Conhecimento Antigo sobre o tema.
Origens: do Sefer Yetzirah a Safed
A Britannica situa as raízes mais antigas na mística da Merkavah, que floresceu na Palestina a partir do século I d.C. e se dedicava à contemplação do trono divino, o “carro” visto pelo profeta Ezequiel. Entre os séculos III e VI surgiu o Sefer Yetzirah (“Livro da Criação”), que descreve a criação por meio de dez números divinos, as sefirot (no singular, sefirá), e das 22 letras do alfabeto hebraico. Segundo esse livro, juntos eles formariam os “32 caminhos da sabedoria secreta”.
No século XII apareceu o Sefer ha-Bahir (“Livro da Claridade”), que a Jewish Encyclopedia associa ao círculo de Isaac, o Cego, na Provença. O Bahir deu às sefirot papel ativo na criação e introduziu no judaísmo a ideia de transmigração das almas (gilgul). Na Espanha do século XIII surgiu o Sefer ha-Zohar (“Livro do Esplendor”), escrito num aramaico que os estudiosos consideram artificial. A tradição atribui a obra ao sábio Simeão bar Yochai, do século II. Moisés de León (c. 1240–1305) fez circular cópias a partir da década de 1280, segundo a Britannica, e Gershom Scholem, em As grandes correntes da mística judaica, o identificou como autor.
Depois da expulsão dos judeus da Espanha, em 1492, a Cabala ganhou ainda mais espaço e, em meados do século XVI, seu centro era Safed, na Galileia. Ali viveu seus últimos anos Isaac Luria (1534–1572), cujos ensinamentos foram registrados pelo discípulo Hayyim Vital, conforme o verbete de Rivka Schatz-Uffenheimer na Britannica. Para Scholem, a influência de Luria só foi superada pela do Zohar. A Britannica acrescenta que a Cabala luriânica marcou profundamente o hassidismo, movimento religioso nascido no século XVIII e ainda presente em comunidades judaicas.
As vertentes da tradição
A Jewish Encyclopedia divide a Cabala em uma parte teórica, a Kabbalah Iyunit, e uma parte prática ou teúrgica, a Kabbalah Ma’asit. Pinson descreve três tipos: a teórica, voltada às dimensões interiores da realidade e aos mundos espirituais; a meditativa, que busca estados elevados de consciência; e a mágica, que procura alterar a natureza. Segundo ele, esta última pode ser perigosa, e a maioria dos textos mais importantes dessa vertente nunca foi publicada.
Pinson aponta Abraão Abulafia (1240–depois de 1291), nascido em Saragoça, como um dos grandes nomes da vertente meditativa. Segundo Moshe Idel, na Encyclopaedia Judaica, o próprio Abulafia chamava seu sistema de “Cabala dos nomes”, isto é, dos nomes divinos, e via nele o caminho para o que chamava de “Cabala profética”.
A Cabala cristã
No Renascimento, a Cabala passou a ser lida por pensadores cristãos. Giovanni Pico della Mirandola (1463–1494) incluiu nas 900 Conclusões, impressas em Roma no fim de 1486, a tese de que a magia e a Cabala provavam a divindade de Cristo, uma novidade teológica escandalosa, nas palavras de Brian Copenhaver, na Stanford Encyclopedia of Philosophy. O humanista alemão Johannes Reuchlin (1455–1522) conheceu Pico em 1490 e publicou De verbo mirifico (Basileia, 1494) e De arte cabalistica (Hagenau, 1517), segundo Gotthard Deutsch e Frederick T. Haneman. No século XVII, o jesuíta Athanasius Kircher procurava difundir a Cabala entre os cristãos, de acordo com Kohler e Ginzberg. Seu Oedipus Aegyptiacus (Roma, 1652–1654) traz uma Árvore das sefirot com 22 canais. Essas leituras adaptavam ideias da Cabala judaica à teologia cristã e, por isso, os estudiosos as tratam como uma corrente à parte.
Do ocultismo à Golden Dawn
No século XIX, a Cabala entrou no repertório do ocultismo europeu. A Britannica, em verbete de Ethan Doyle White, registra que a Ordem Hermética da Aurora Dourada (Golden Dawn), ativa de 1888 ao início do século XX, adotou inovações do escritor francês Éliphas Lévi, que popularizou o termo “ocultismo”. A ordem associou seus graus às dez sefirot, que ligava também a números, letras, cores e cartas do tarô. Seu cofundador Samuel Liddell MacGregor Mathers publicou The Kabbalah Unveiled em 1887. O papel de Lévi na simbologia mágica aparece também no nosso artigo sobre o pentagrama.
Essa história explica as três grafias encontradas hoje. O pesquisador Don Karr resume o uso corrente: Kabbalah designa a tradição judaica; Cabala, as interpretações cristãs do Renascimento e da Reforma; Qabalah, a vertente hermética das escolas do século XIX, como a Golden Dawn, centrada na Árvore da Vida e em suas correspondências. Segundo Karr, os acadêmicos tendem hoje a preferir “Kabbalah” com os qualificativos “cristã” ou “hermética”. Em português, “Cabala” é a forma consagrada para todas elas, e textos judaicos também usam “Cabalá”.
Práticas, em perspectiva histórica
As fontes consultadas destacam três práticas. A primeira é o estudo do texto, feito com um mestre, como aponta a Britannica. A segunda é a meditação sobre os nomes divinos, que em Abulafia envolvia combinar e pronunciar letras com técnicas de respiração, segundo Idel. A terceira é a gematria, que Solomon Schechter e Caspar Levias definem como a troca de uma palavra pelo seu valor numérico, ou uma cifra obtida pela permutação de letras. O recurso já aparece na literatura rabínica tradicional e ganhou uso próprio na Cabala, inclusive no cálculo dos valores das sefirot. Outros sistemas mágicos apresentados no site, como os do Lemegeton, pertencem a tradições diferentes, embora muitas vezes sejam associados à Cabala.
As dez sefirot e a Árvore da Vida
Para os cabalistas, as sefirot são as dez emanações, isto é, manifestações que procedem do divino, pelas quais o Ein Sof (“sem fim”), o Infinito que não pode ser conhecido, se revela. Nas escolas herméticas, a palavra costuma aparecer como sephiroth. A Britannica as chama também de coroas, atributos, princípios ou degraus e as traduz assim: Keter, a Coroa suprema; Chokhmah, a Sabedoria; Binah, a Inteligência; Chesed, o Amor, que a Jewish Encyclopedia chama de “misericórdia”; Gevurah, o Poder; Tiferet, a Beleza; Netzach, a Eternidade, ou “triunfo” na mesma enciclopédia; Hod, a Majestade, ou “glória”; Yesod, o Fundamento; e Malkhut, o Reino.
Na representação da Árvore da Vida, as sefirot se organizam em tríades que formam três pilares: direito, esquerdo e central. A Jewish Encyclopedia registra ainda Da’at, que traduz por “razão” e que os cabalistas que não incluem Keter entre as sefirot contam como a terceira sefirá, enquanto a maioria a entende como união de Chokhmah e Binah.
As qelipot (Qliphoth)
Na Cabala de Luria, as qelipot (“cascas”, as formas impuras) estão ligadas à queda de partículas de luz divina na matéria; a restauração cósmica que responde a essa queda se chama tikkun, segundo a Britannica. Qliphoth é outra transliteração da mesma palavra, comum nos textos ocultistas. O tema será tratado em artigo próprio desta série.
Para situar a Cabala entre outras correntes, veja também os diferentes tipos de magia.
Tira-dúvidas
A Cabala é uma religião?
Não. Segundo a Britannica, é uma tradição mística dentro do judaísmo, no qual a observância da Lei de Moisés continuou sendo o fundamento.
Quem escreveu o Zohar?
A tradição atribui a obra a Simeão bar Yochai. A pesquisa acadêmica, a partir de Scholem, identifica Moisés de León como autor, no fim do século XIII. Yehuda Liebes propôs a participação de um círculo de cabalistas.
Qual grafia está certa?
Todas existem. Kabbalah, Cabala e Qabalah costumam indicar, respectivamente, as vertentes judaica, cristã e hermética, segundo Karr.
Glossário
- Ein Sof: “sem fim”; na Cabala, o Deus infinito e incognoscível de onde emanam as sefirot.
- Gematria: substituição de uma palavra pelo valor numérico de suas letras hebraicas.
- Merkavah: “carro”; mística judaica antiga centrada na visão do trono divino de Ezequiel.
- Sefirá (plural: sefirot): para os cabalistas, cada uma das dez emanações ou atributos divinos; nas escolas herméticas, sephirah e sephiroth.
- Tikkun: na Cabala de Luria, a restauração cósmica do mundo.
Bibliografia
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