Em 1891, cortadores de turfa encontraram num pântano perto de Gundestrup, na Dinamarca, um caldeirão de prata desmontado, com as placas empilhadas dentro da base. Numa das placas aparece uma figura sentada com chifres de cervo na cabeça, um torque (colar rígido de metal) numa das mãos e uma serpente com chifres na outra. Muitos estudiosos a identificam com Cernunnos, um deus cujo nome aparece com clareza num único monumento, o Pilar dos Barqueiros, achado em 1711 sob a catedral de Notre-Dame, em Paris.
Esse caldeirão mostra bem o problema de estudar a religião dos celtas. Temos objetos e imagens impressionantes, quase nenhuma explicação escrita pelos próprios celtas e muita coisa dita por outros povos. Este post faz parte do mapa apresentado em Magia e espiritualidade nas civilizações antigas: um mapa para começar. Na série, os celtas vêm depois de Göbekli Tepe, da Mesopotâmia, do Egito e da Grécia.
Quem eram os celtas
“Celtas” é um nome amplo. Os gregos falavam em Keltoi para designar povos que viviam ao norte deles, e os romanos chamavam de gauleses os habitantes da Gália, a atual França. O arqueólogo Barry Cunliffe, em The Ancient Celts, mostra que a palavra cobre povos muito diferentes, espalhados da Península Ibérica à Europa Central e às Ilhas Britânicas, que tinham em comum línguas aparentadas e alguns estilos de arte, como o chamado La Tène.
Não existiu um império celta nem uma religião celta única. Cada povo tinha os seus deuses, e muitos nomes de divindades aparecem em uma só região.
As três fontes
Os pesquisadores usam três tipos de evidência, e cada um tem limites.
A primeira é a arqueologia: santuários, oferendas jogadas em rios e lagos, estatuetas, moedas, enterros. Miranda Green, em The Gods of the Celts, organiza esse material por temas, como os cultos do sol e do céu, as deusas-mães, a guerra, a morte, as águas e os animais. Boa parte das imagens de deuses é do período romano, quando os gauleses passaram a esculpir em pedra e a escrever nomes em latim.
A segunda são os autores gregos e romanos. Eles escreveram sobre os celtas de fora, muitas vezes como inimigos, e misturaram observação com estereótipo.
A terceira são os textos irlandeses e galeses da Idade Média, escritos por monges cristãos séculos depois da conversão. Neles aparecem personagens como o Dagda, Lugh e Brigid. O historiador Ronald Hutton, em Pagan Britain, lembra que esses textos podem guardar lembranças de deuses antigos, mas foram compostos num mundo já cristão, e é difícil saber o que é memória e o que é criação literária.
Os druidas segundo César
O relato antigo mais detalhado sobre os druidas está em De Bello Gallico, as memórias de Júlio César sobre a guerra na Gália, escritas no século I a.C. No livro VI, César diz que os druidas cuidavam dos sacrifícios e das questões religiosas, julgavam disputas e eram dispensados da guerra e dos impostos. Segundo ele, a formação de um druida podia levar vinte anos, porque eles decoravam um grande número de versos. Não punham por escrito os seus ensinamentos, embora usassem letras gregas para outros assuntos. Ensinavam que a alma não morre e passa de um corpo para outro.
César também conta que os druidas se reuniam uma vez por ano no território dos carnutos, considerado o centro da Gália. E descreve sacrifícios humanos, inclusive grandes figuras de vime cheias de pessoas, queimadas vivas.
Hutton chama atenção para quem está falando. César era o general que conquistava a Gália, e o retrato dos druidas servia aos seus objetivos políticos. Isso não torna tudo falso, mas pede cautela.
Outro autor romano, Plínio, o Velho, descreve na História Natural um rito em que os druidas cortavam com uma foice de ouro o visco que crescia num carvalho e sacrificavam dois touros brancos. É uma das cenas mais citadas sobre os druidas, e também uma das que só conhecemos por essa única fonte.
O que a arqueologia acrescenta
Hutton, em The Pagan Religions of the Ancient British Isles, mostra como a arqueologia às vezes confirma e às vezes complica os autores clássicos. Em 1984, foi encontrado num pântano de Lindow, na Inglaterra, o corpo de um homem morto de forma violenta por volta do século I d.C., e a imprensa logo falou em sacrifício druídico. Hutton discute essa interpretação e mostra que ela continua incerta.
Outro achado importante é o calendário de Coligny, uma placa de bronze encontrada em 1897 em Coligny, no leste da França. Ela foi feita no século II d.C., em língua gaulesa e com letras latinas, e organiza um ciclo de cinco anos de meses lunares. Um dos meses se chama Samonios, nome que muitos pesquisadores aproximam do Samhain irlandês, embora a ligação exata seja discutida.
A estudiosa Anne Ross, em Pagan Celtic Britain, reuniu imagens e inscrições das Ilhas Britânicas e destacou um tema que aparece em muitos lugares: a cabeça humana como objeto sagrado.
As festas irlandesas
Os textos irlandeses medievais citam quatro grandes festas, como mostra Hutton em The Stations of the Sun: Samhain, no início de novembro; Imbolc, no início de fevereiro; Beltaine, no início de maio; e Lughnasa, no início de agosto. São as festas que hoje inspiram parte dos sabbaths neopagãos.
No mesmo livro, Hutton lembra que conhecemos essas festas sobretudo por fontes medievais e que muito do que se diz sobre elas, como a ideia de que Samhain era o “ano-novo celta”, não aparece com clareza nas fontes antigas.
O que é reconstrução moderna
Muito do que hoje se chama “celta” nasceu nos séculos XVIII e XIX. Em 1792, o poeta galês Iolo Morganwg (Edward Williams) reuniu bardos em Primrose Hill, em Londres, numa cerimônia que ele chamou de Gorsedd e apresentou como herança dos druidas. Boa parte dos textos “antigos” que ele divulgou foi escrita por ele mesmo.
No século XX, a Wicca e outros movimentos neopagãos reuniram as quatro festas irlandesas, os solstícios e os equinócios numa só roda de oito festas. Hutton conta essa história em The Triumph of the Moon. É uma criação moderna inspirada em fontes antigas e medievais.
Sobre a expressão gaélica anam cara, “amigo da alma”, o site tem o texto Os celtas e o valor da amizade: Anam Cara.
Os próximos posts da série tratam dos druidas, dos deuses e mitos celtas e do calendário celta [em breve].
Tira-dúvidas
Os druidas deixaram livros?
Não que se saiba. Segundo César, eles se recusavam a escrever os seus ensinamentos e os transmitiam de memória.
Stonehenge foi construído pelos druidas?
Não. Hutton, em Pagan Britain, lembra que Stonehenge é muitos séculos mais antigo do que qualquer menção aos druidas. A ligação entre os dois foi feita por antiquários a partir do século XVII.
Samhain era o ano-novo celta?
É possível, mas não está provado. As fontes que falam de Samhain são irlandesas e medievais, e Hutton, em The Stations of the Sun, considera essa ideia uma interpretação moderna sem base clara nas fontes antigas.
Mini-glossário
- Druida: membro da classe religiosa e erudita dos gauleses e britânicos, segundo os autores clássicos.
- Torque: colar rígido de metal, usado como sinal de status e presente nas imagens de deuses.
- La Tène: estilo de arte da Idade do Ferro europeia, associado aos povos celtas.
- Calendário de Coligny: placa de bronze gaulesa do século II d.C. com um calendário de meses lunares.
- Gorsedd: cerimônia de bardos criada por Iolo Morganwg em 1792 e apresentada como druídica.
Bibliografia
CÉSAR, Júlio. The Gallic War [De Bello Gallico]. Tradução de H. J. Edwards. Cambridge, MA: Harvard University Press; Londres: Heinemann, 1917. (Loeb Classical Library, 72).
CUNLIFFE, Barry. The Ancient Celts. Oxford: Oxford University Press, 1997.
GREEN, Miranda J. The Gods of the Celts. Gloucester: Alan Sutton, 1986.
HUTTON, Ronald. Pagan Britain. New Haven: Yale University Press, 2013.
HUTTON, Ronald. The Pagan Religions of the Ancient British Isles: Their Nature and Legacy. Oxford: Blackwell, 1991.
HUTTON, Ronald. The Stations of the Sun: A History of the Ritual Year in Britain. Oxford: Oxford University Press, 1996.
HUTTON, Ronald. The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft. Oxford: Oxford University Press, 1999.
PLÍNIO, o Velho. Natural History. v. 4 (livros 12–16). Tradução de H. Rackham. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1945. (Loeb Classical Library, 370).
ROSS, Anne. Pagan Celtic Britain: Studies in Iconography and Tradition. Londres: Routledge & Kegan Paul, 1967.
