Numa noite do primeiro milênio antes de Cristo, numa casa da Assíria ou da Babilônia, um especialista recitava quase cem encantamentos seguidos. Ao lado dele, pequenas figuras que representavam bruxas eram jogadas no fogo. O ritual se chamava Maqlû, “Queima”, e chegou até nós porque alguém o escreveu em tabuinhas de argila. É por isso que a Mesopotâmia ocupa um lugar especial no mapa desta série, apresentado em Magia e espiritualidade nas civilizações antigas: um mapa para começar: ali, pela primeira vez, rezas, receitas de cura, presságios e encantamentos ficaram registrados por escrito.
Onde e quando
Mesopotâmia é uma palavra grega que quer dizer “entre rios”. Os rios são o Tigre e o Eufrates, e a região corresponde, em boa parte, ao atual Iraque. Ao longo de mais de três mil anos, passaram por ali sumérios, acádios, babilônios e assírios, com línguas diferentes e uma cultura religiosa em grande parte compartilhada.
Bem antes disso, no alto da mesma região, caçadores-coletores ergueram os pilares de Göbekli Tepe. Mas a história escrita começa no sul, em Uruk. Ali, por volta de 3200 a.C., apareceram as primeiras tabuinhas com sinais gravados na argila, a escrita que depois chamaríamos de cuneiforme, por causa da forma de cunha dos traços. Os primeiros textos não falavam de deuses. Eram listas de palavras e contas de cereais, animais e trabalho.
Os encantamentos vieram depois. Os mais antigos conhecidos, em sumério, foram achados em Fara, a antiga Šuruppak, e em Ebla, na Síria, e datam de cerca de 2600 a 2500 a.C. O assiriólogo Manfred Krebernik reuniu esses textos num estudo publicado em 1984.
Deuses, cidades e demônios
Cada cidade tinha o seu deus principal e um templo que era a casa dele. Enlil era o senhor de Nippur. Enki, chamado Ea em acádio, morava em Eridu e era o deus da água doce, da sabedoria e dos encantamentos. Inanna, a Ištar dos acádios, era a deusa do amor e da guerra, ligada ao planeta Vênus. Marduk, o deus da Babilônia, foi ganhando importância até se tornar o rei dos deuses no primeiro milênio.
Jeremy Black e Anthony Green, no dicionário Gods, Demons and Symbols of Ancient Mesopotamia, mostram que esse mundo também era cheio de seres menores, bons e maus. A demônia Lamaštu atacava grávidas e recém-nascidos. Pazuzu, um demônio do vento, tinha uma imagem tão assustadora que era usada justamente para afastar outros males, inclusive Lamaštu. Museus como o Metropolitano de Nova York e o Britânico guardam amuletos dos dois, pequenos o bastante para ser usados no corpo.
O historiador Thorkild Jacobsen, em The Treasures of Darkness, propôs que a imagem dos deuses mudou com o tempo. No quarto milênio, segundo ele, os deuses eram vistos sobretudo como forças presentes na natureza. No terceiro, ganharam a figura de reis e governantes. No segundo, cresceu a ideia de um deus pessoal, que protegia cada indivíduo. É uma interpretação, discutida até hoje.
Os especialistas: āšipu, asû e bārû
Para os mesopotâmicos, a doença e o azar quase sempre tinham uma causa invisível: a ira de um deus, um demônio ou o feitiço de alguém. Quem lidava com isso eram especialistas letrados.
O āšipu, palavra acádia que costuma ser traduzida como “exorcista” ou “conjurador”, era o principal deles. Segundo o projeto Corpus of Mesopotamian Anti-Witchcraft Rituals, da Universidade de Würzburg, ele purificava casas, estábulos e campos, participava de ritos nos templos e da consagração de estátuas divinas e tratava doenças graves afastando a força maligna que estaria por trás delas. O saber do āšipu tinha nome próprio, āšipūtu.
Ao lado dele trabalhava o asû, em geral traduzido como “médico”. O asû cuidava de males de causa visível, como fraturas, ferimentos e tosses, e usava remédios cuja preparação podia incluir encantamentos. Os dois ofícios se misturavam. Os textos dos exorcistas neoassírios, nos séculos VIII e VII a.C., misturam o que hoje chamaríamos de magia e de medicina, como mostram Tzvi Abusch e Daniel Schwemer no Corpus of Mesopotamian Anti-Witchcraft Rituals.
O terceiro especialista era o bārû, o adivinho. Sua técnica mais prestigiada era a extispicina, o exame das entranhas de um carneiro sacrificado, sobretudo o fígado. O adivinho pedia aos deuses que escrevessem a resposta no corpo do animal e depois lia os sinais.
Presságios: o mundo como um texto
Os mesopotâmicos acreditavam que os deuses deixavam mensagens em quase tudo: no fígado de um carneiro, no voo dos pássaros, no nascimento de um animal com defeito, nos eclipses. Para interpretar essas mensagens, os escribas montaram enormes listas de presságios no formato “se… então”. Se acontece tal sinal, então virá tal consequência.
O historiador francês Jean Bottéro, em Mesopotamia: Writing, Reasoning, and the Gods, chamou atenção para esse formato. Para ele, essas listas mostram um modo de pensar que organiza casos, compara e deduz, e que nasceu junto com a própria escrita. Os sinais do mundo eram tratados como uma espécie de escrita dos deuses.
A maior coleção de presságios celestes se chama Enūma Anu Enlil, nome tirado das suas primeiras palavras. Ela reúne cerca de 70 tabuinhas e uns 7 mil presságios sobre a Lua, o Sol, o tempo e planetas como Vênus. Dessa observação sistemática do céu saiu, séculos depois, a astrologia que chegou aos gregos, tema de a origem da astrologia.
Contra a bruxaria: o Maqlû
No primeiro milênio antes de Cristo, os encantamentos foram organizados em séries, com tabuinhas numeradas numa ordem mais ou menos fixa. Uma das mais famosas é justamente o Maqlû.
Segundo o projeto de Würzburg e a edição crítica de Tzvi Abusch, a série tinha nove tabuinhas. Oito traziam o texto dos encantamentos, quase cem ao todo, em acádio. A nona, chamada Tabuinha do Ritual, dava instruções ao āšipu sobre o que fazer enquanto recitava. A cerimônia durava uma noite. As figuras das bruxas eram queimadas, e o paciente, visto como vítima de um feitiço, passava simbolicamente da morte de volta à vida. Os pesquisadores leem o ritual como um processo judicial diante dos deuses, que terminava com a absolvição da vítima e a condenação de quem a enfeitiçou.
Os mesmos autores mostram que a bruxa típica dessas fontes é uma mulher, e a vítima típica é um homem, embora houvesse também feiticeiros homens, como o adversário num processo. A bruxaria era crime (o Código de Hamurabi já trata da acusação), enquanto os rituais contra ela eram prática legítima dos especialistas.
A grande biblioteca de Nínive
Boa parte desse material sobreviveu graças a Assurbanípal. O rei, que governou a Assíria de 668 até cerca de 631 a.C., reuniu em Nínive uma coleção de tabuinhas com textos de adivinhação, magia, medicina e literatura. Segundo o projeto da biblioteca, mantido pela Universidade da Pensilvânia e pelo Museu Britânico, sobreviveram quase 32 mil tabuinhas e fragmentos. Quando Nínive foi saqueada e incendiada, em 612 a.C., o fogo cozeu a argila e ajudou a preservá-la. Muitas das cópias do Maqlû vêm dessa coleção.
Os próximos posts da série vão aprofundar cada parte desse mundo: Suméria e Acádia, Babilônia, Assíria, os deuses mesopotâmicos, o Maqlû e a astrologia babilônica [em breve]. Logo depois vem o Egito Antigo.
Tira-dúvidas
Os mesopotâmicos separavam magia de religião?
Não da forma como fazemos hoje. O mesmo especialista podia rezar a um deus, preparar um remédio e recitar um encantamento para tratar um único doente.
A astrologia dos signos já existia na Mesopotâmia?
A observação do céu como fonte de presságios, sim. Os presságios do Enūma Anu Enlil tratavam sobretudo do rei e do país. A astrologia dos signos, como a conhecemos, se formou bem mais tarde, com a mistura de saberes babilônicos e gregos.
Por que conhecemos tantos textos mesopotâmicos?
Porque eram escritos em argila, um material que resiste bem ao tempo e, quando queimado, endurece. A biblioteca de Assurbanípal, em Nínive, é o exemplo mais conhecido.
Mini-glossário
- Cuneiforme: escrita feita com traços em forma de cunha marcados na argila, surgida em Uruk por volta de 3200 a.C.
- Āšipu: especialista mesopotâmico em rituais de cura, purificação e proteção, em geral traduzido como “exorcista”.
- Asû: profissional de cura, traduzido como “médico”, que tratava males de causa visível.
- Bārû: adivinho que lia os sinais dos deuses, sobretudo no fígado de animais sacrificados.
- Extispicina: adivinhação pelo exame das entranhas de um animal sacrificado.
Bibliografia
ABUSCH, Tzvi. The Magical Ceremony Maqlû: A Critical Edition. Leiden: Brill, 2016. (Ancient Magic and Divination, 10).
ABUSCH, Tzvi; SCHWEMER, Daniel. Corpus of Mesopotamian Anti-Witchcraft Rituals (CMAwR). v. 1. Leiden: Brill, 2011.
BLACK, Jeremy; GREEN, Anthony. Gods, Demons and Symbols of Ancient Mesopotamia: An Illustrated Dictionary. Londres: British Museum Press, 1992.
BOTTÉRO, Jean. Mesopotamia: Writing, Reasoning, and the Gods. Chicago: University of Chicago Press, 1992.
BOTTÉRO, Jean. Religion in Ancient Mesopotamia. Chicago: University of Chicago Press, 2001.
JACOBSEN, Thorkild. The Treasures of Darkness: A History of Mesopotamian Religion. New Haven: Yale University Press, 1976.
KREBERNIK, Manfred. Die Beschwörungen aus Fara und Ebla. Hildesheim: Georg Olms, 1984.
UNIVERSIDADE DE WÜRZBURG. Corpus of Mesopotamian Anti-witchcraft Rituals online: Maqlû; Experts. Disponível em: https://www.phil.uni-wuerzburg.de/en/cmawro/.
UNIVERSITY OF PENNSYLVANIA; BRITISH MUSEUM. Ashurbanipal Library Project: A royal collection. Disponível em: https://oracc.museum.upenn.edu/asbp/.
