Por volta do século XXIV antes de Cristo, os construtores da pirâmide do rei Unas, em Saqqara, gravaram nas paredes da câmara funerária mais de duzentos feitiços em hieróglifos. Eles deveriam ajudar o rei morto a subir ao céu e a viver para sempre entre os deuses. Hoje esses textos são chamados de Textos das Pirâmides, e a egiptóloga Geraldine Pinch, em Magic in Ancient Egypt, os apresenta como a coleção de literatura funerária mais antiga que sobreviveu. Muitos deles, segundo ela, já deviam ter séculos de uso quando foram gravados na pedra.
O Egito tem um lugar central no mapa desta série, apresentado em Magia e espiritualidade nas civilizações antigas: um mapa para começar. Poucas culturas deixaram tantos textos sobre deuses, rituais e vida após a morte.
Um país feito pelo rio
O Egito Antigo vivia da cheia anual do Nilo. A água subia todo ano, cobria as margens e deixava uma lama fértil que permitia plantar no meio do deserto. O historiador brasileiro Ciro Flamarion Cardoso escreveu uma introdução a essa história em O Egito Antigo.
A civilização faraônica durou cerca de três mil anos, explica Cardoso, desde a unificação do país, por volta de 3000 a.C., até a conquista romana, em 30 a.C. Nesse tempo, a religião mudou muito. Mesmo assim, algumas ideias atravessaram todos os períodos.
Mais ao leste, na Mesopotâmia, outra civilização também nascia à beira de rios e também registrava seus encantamentos por escrito. As duas culturas se conheciam, trocavam mercadorias e, em certas épocas, guerreavam.
Maat: a ordem do mundo
A ideia mais importante para entender a religião egípcia é maat. A palavra reúne verdade, justiça, equilíbrio e ordem. Maat também era uma deusa, representada como uma mulher com uma pena de avestruz na cabeça.
O egiptólogo alemão Jan Assmann, em The Search for God in Ancient Egypt, descreve maat como o princípio que liga os deuses, o rei, a sociedade e a natureza. O contrário dela era isfet, o caos. Para os egípcios, a ordem do mundo não estava garantida para sempre. Ela precisava ser mantida todos os dias, pelos rituais dos templos e pelo comportamento correto das pessoas.
O faraó tinha um papel central nisso. Ele era o intermediário entre os deuses e os homens e, em teoria, o único sacerdote de todos os templos. Na prática, sacerdotes oficiavam em nome dele. A cada manhã, nos santuários, a estátua do deus era lavada, vestida e alimentada com oferendas.
Muitos deuses, muitas formas
Os egípcios cultuavam centenas de deuses. Rá era o sol, Osíris reinava sobre os mortos, Ísis era a esposa de Osíris e uma grande conhecedora de magia, Thoth era o deus da escrita e da sabedoria, Anúbis cuidava dos mortos e da mumificação. Richard H. Wilkinson, em The Complete Gods and Goddesses of Ancient Egypt, reúne as imagens e os mitos de cada um.
Muitos aparecem com cabeça de animal: Hórus com cabeça de falcão, Anúbis com cabeça de chacal, Sekhmet com cabeça de leoa. Erik Hornung, em Conceptions of God in Ancient Egypt: The One and the Many, explica que essas imagens mostravam uma qualidade do deus, sem a intenção de retratar sua aparência real. Hornung também mostra que um mesmo deus podia ter várias formas e nomes, e que dois deuses podiam se unir num só, como Amon-Rá.
Houve uma exceção famosa. No século XIV a.C., o faraó Akhenaton deu um lugar único a Aton, o disco solar, e deixou de lado o culto a outros deuses. Depois da morte dele, a religião tradicional voltou. Hornung dedica parte do livro a discutir se essa fase pode ser chamada de monoteísmo.
Heka: a magia como força do universo
A palavra egípcia que costumamos traduzir por “magia” é heka. Segundo Pinch, heka era uma energia que o deus criador usou para fazer o mundo, e cada ato de magia era uma continuação da criação. Heka também era um deus, representado em forma humana.
O egiptólogo Robert K. Ritner, em The Mechanics of Ancient Egyptian Magical Practice, mostra que a menção mais antiga ao deus Heka está no templo funerário do rei Sahure, da 5ª dinastia, onde ele lidera uma procissão de oferendas. A tese central de Ritner é que, no Egito, a magia era praticada por sacerdotes como a técnica da própria religião. A separação ocidental entre religião e magia, diz ele, não serve para descrever a prática egípcia.
Pinch chega a uma conclusão parecida. Rituais que hoje chamaríamos de magia eram feitos sobretudo por sacerdotes, e a magia ritual foi praticada em nome do Estado durante pelo menos três mil anos.
Um desses especialistas era o sacerdote-leitor, que recitava os textos sagrados nos templos e nos funerais. Ritner mostra que o título ḥry-tp, do sacerdote-leitor principal, virou no demótico a palavra para “mago” e passou ao hebraico como ḥarṭummîm, os magos do Faraó no Gênesis e no Êxodo.
A magia também fazia parte da vida diária. Pinch descreve feitiços de cura em que o médico-mago identificava o paciente com o pequeno Hórus, que no mito sofreu e foi curado por Ísis. Ao repetir a história, ele esperava que as forças do cosmo agissem pelo doente como tinham agido pelo deus. Amuletos, como o olho de Hórus e o escaravelho, protegiam vivos e mortos. Algumas plantas e resinas usadas nesses ritos aparecem no nosso texto sobre ervas sagradas dos deuses.
A vida depois da morte
Os Textos das Pirâmides eram reservados aos reis. No Médio Império, feitiços parecidos passaram a ser escritos em sarcófagos de pessoas da elite, e por isso são chamados de Textos dos Sarcófagos. No Novo Império, a partir de cerca de 1550 a.C., surgiram os rolos de papiro que conhecemos como Livro dos Mortos. Os egípcios os chamavam de “fórmulas para sair durante o dia”.
O feitiço mais famoso é o 125. Nele, o morto é levado diante de Osíris e de 42 juízes, declara que não cometeu uma série de faltas, e seu coração é pesado numa balança contra a pena de Maat. Se a balança ficasse equilibrada, ele era declarado “justo de voz” e seguia para a vida eterna. Se não, um monstro com cabeça de crocodilo, corpo dianteiro de leão e traseiro de hipopótamo, chamado Ammit, devoraria o coração. Jan Assmann, em Death and Salvation in Ancient Egypt, analisa esse julgamento como o encontro entre a moral da vida e o destino depois da morte.
O corpo também precisava ser preservado. A mumificação, os amuletos colocados entre as faixas e as oferendas no túmulo serviam para que a pessoa continuasse existindo no além.
Os próximos posts da série tratam com mais calma da heka, dos deuses egípcios, de Ísis, dos Textos das Pirâmides, do Livro dos Mortos e do céu egípcio [em breve]. Antes do Egito, a série visita Göbekli Tepe.
Tira-dúvidas
Os egípcios separavam magia de religião?
Segundo Ritner e Pinch, não da forma como fazemos hoje. A heka era praticada sobretudo por sacerdotes, dentro e fora dos templos.
O Livro dos Mortos era um livro só?
Era um conjunto de feitiços copiados em rolos de papiro, e cada rolo trazia uma seleção diferente, feita para uma pessoa.
Por que os deuses têm cabeça de animal?
Segundo Hornung, a cabeça de animal mostrava uma qualidade do deus, como a força da leoa em Sekhmet.
Mini-glossário
- Maat: a ordem justa do mundo, que reúne verdade e equilíbrio; também o nome da deusa que a representa.
- Isfet: o caos e a desordem, o contrário de maat.
- Heka: a força criadora usada pelos deuses e pelos sacerdotes, traduzida como “magia”; também um deus.
- Sacerdote-leitor: sacerdote que recitava os textos sagrados nos templos e nos funerais.
- Livro dos Mortos: rolos de papiro com feitiços para guiar o morto no além, usados a partir do Novo Império.
Bibliografia
ASSMANN, Jan. Death and Salvation in Ancient Egypt. Tradução de David Lorton. Ithaca: Cornell University Press, 2005.
ASSMANN, Jan. The Search for God in Ancient Egypt. Tradução de David Lorton. Ithaca: Cornell University Press, 2001.
CARDOSO, Ciro Flamarion. O Egito Antigo. São Paulo: Brasiliense, 1982. (Tudo é História).
HORNUNG, Erik. Conceptions of God in Ancient Egypt: The One and the Many. Tradução de John Baines. Ithaca: Cornell University Press, 1982.
PINCH, Geraldine. Magic in Ancient Egypt. Londres: British Museum Press, 1994.
RITNER, Robert K. The Mechanics of Ancient Egyptian Magical Practice. Chicago: The Oriental Institute of the University of Chicago, 1993. (Studies in Ancient Oriental Civilization, 54).
WILKINSON, Richard H. The Complete Gods and Goddesses of Ancient Egypt. Londres: Thames & Hudson, 2003.
