No primeiro milênio antes de Cristo, na Mesopotâmia, alguém com febre não chamava só um médico. Chamava também o āšipu, um especialista em rituais que recitava fórmulas, preparava amuletos e pedia aos deuses que afastassem o mal. Para aquela pessoa, rezar, tratar o corpo e fazer um encantamento eram partes de um mesmo cuidado.
Esse detalhe explica por que esta série existe. Deusas egípcias, oráculos gregos e festivais celtas despertam muita curiosidade, e quase sempre chegam até nós misturados com lendas recentes. Este texto é o ponto de partida: explica algumas palavras-chave, mostra como os historiadores separam fonte antiga de interpretação moderna e apresenta o mapa da série.
Magia, religião e oráculo: palavras que mudaram de sentido
A palavra “magia” vem do grego mageia, ligada aos sacerdotes persas (os magos). Os gregos usavam o termo muitas vezes com desconfiança, para falar de práticas estrangeiras ou suspeitas. O historiador Fritz Graf, em Magic in the Ancient World, mostra que chamar algo de “magia” na Antiguidade costumava ser um julgamento: o rito dos outros era magia, o meu era religião. Platão, na República, já reclamava de sacerdotes ambulantes que batiam à porta dos ricos oferecendo purificações e feitiços contra inimigos, e em As Leis propôs punir quem prejudicasse outra pessoa com encantamentos.
Nas próprias culturas antigas, a fronteira era bem mais borrada. No Egito, heka era ao mesmo tempo uma força divina e a arte de usá-la, e os sacerdotes a praticavam dentro dos templos. Na Grécia e em Roma, a religião oficial convivia com as tabuinhas de maldição que as pessoas enterravam escondidas. Graf dedica um capítulo a esses objetos, chamados em grego de katadesmoi e em latim de defixiones: finas placas de chumbo com o nome de um rival, enroladas, furadas com um prego e depositadas em túmulos, poços ou fontes, lugares vistos como passagens para o mundo dos mortos. Serviam para “amarrar” adversários em processos, corridas e amores. Quando você ler “magia” nesta série, pense num leque amplo: pedidos aos deuses, proteção, cura, adivinhação e ritos para fazer o mundo andar no ritmo certo.
“Oráculo” também pede explicação. Pode ser um lugar (o santuário de Delfos), uma pessoa (a Pítia, que falava em nome de Apolo) ou a resposta recebida. Ler o fígado de um animal sacrificado, observar o voo das aves ou lançar varetas eram formas de perguntar algo ao sagrado. Esses métodos aparecem em quase todas as civilizações da série; veja a seção de oráculos e o texto sobre os diferentes tipos de magia.
Fonte histórica e mito moderno
Sobre o mundo antigo, sabemos coisas por três vias. A primeira são os textos da época: tabuinhas de argila, papiros, inscrições, hinos. A segunda é a arqueologia: templos, túmulos, estatuetas, restos de oferendas. A terceira são relatos escritos por outros povos, às vezes séculos depois e quase sempre com preconceitos.
Os celtas são o exemplo clássico. Eles deixaram pouquíssima escrita sobre a própria religião, e boa parte do que se diz sobre os druidas vem de autores romanos, como Júlio César, que estavam em guerra com eles. Muita “tradição druídica” que circula hoje foi criada nos séculos XVIII e XIX.
O mesmo cuidado vale para histórias mais recentes sobre o passado. Em 1921, a egiptóloga Margaret Murray publicou The Witch-Cult in Western Europe, defendendo que as pessoas acusadas de bruxaria na Europa moderna seriam herdeiras de uma religião pagã pré-cristã. O historiador Ronald Hutton, em The Triumph of the Moon, mostra como essa tese influenciou muita gente e como os historiadores a abandonaram depois de reexaminar as fontes dos processos que ela citava. Hutton também mostra que Gerald Gardner tornou a Wicca pública em 1954, com o livro Witchcraft Today, três anos depois da revogação, em 1951, da Lei de Bruxaria de 1735. Segundo ele, a religião combinou fontes antigas, folclore, magia cerimonial e ideias do seu próprio tempo.
Ao longo da série, cada post vai separar essas camadas. Quando a informação for incerta, vamos dizer que é incerta.
O sagrado em todo lugar
O estudioso romeno Mircea Eliade, em O sagrado e o profano, descreve uma ideia que ajuda a ler quase todas essas culturas: para o ser humano antigo, o sagrado se manifesta no mundo. Uma montanha, uma árvore, uma fonte ou um templo podem ser pontos onde céu e terra se tocam, o que ele chama de hierofania. Muitas culturas imaginavam um centro do mundo, um eixo ligando os três níveis do cosmo; Eliade usa a expressão latina axis mundi para essa ideia. O tempo também era sagrado, marcado por festas que repetiam os gestos dos deuses no início do mundo. Na Babilônia, por exemplo, o épico da criação, o Enuma Elish, era recitado durante o Akitu, a festa de Ano-Novo, e Eliade lê esse rito como uma renovação simbólica do cosmo.
Cada povo tinha o seu próprio calendário, ligado às suas estações e ao seu céu. Os maias, por exemplo, construíram um dos sistemas de contagem do tempo mais complexos que se conhecem, assunto que já tratamos em o calendário maia. A observação dos astros, que deu origem à astrologia, nasceu na Mesopotâmia e passou por Egito, Grécia e Roma, como contamos em a origem da astrologia.
O mapa da série
A série segue uma ordem que é parte geografia, parte tempo: cada região tem um post geral, com textos sobre deuses, rituais e oráculos.
Começamos pelo começo possível: Göbekli Tepe, na atual Turquia, um conjunto de pilares de pedra com mais de 11 mil anos, chamado por alguns de “primeiro templo” [em breve]. Dali vamos para a Mesopotâmia, onde a magia ganhou escrita [em breve], e para o Egito Antigo, com sua religião voltada para a eternidade [em breve].
O bloco do Mediterrâneo passa por minoicos e micênicos, pela Grécia dos deuses, oráculos e mistérios, pelo mundo helenístico, por Roma e por Bizâncio, e chega à magia no Ocidente medieval e aos talismãs do mundo islâmico [em breve]. É nesse caminho que surgem os grimórios, livros de magia que influenciam até hoje obras como o Lemegeton, a Chave Menor de Salomão e sua primeira parte, a Ars Goetia.
Na Ásia, visitamos o Vale do Indo, cuja escrita ainda ninguém decifrou, a Índia védica e a China antiga, com seu culto aos ancestrais e a busca do equilíbrio [em breve]. Nas Américas, vamos dos olmecas e Teotihuacan aos maias e astecas, e dos primeiros templos andinos de Caral e Chavín até os incas [em breve].
No Brasil, a cerâmica marajoara e os saberes dos povos amazônicos mostram uma espiritualidade antiga e própria desta terra [em breve]. Por fim, reunimos civilizações que costumam ficar de fora: etruscos, celtas, o reino de Axum, o Grande Zimbábue e Angkor [em breve].
Tira-dúvidas
A Wicca é uma religião antiga?
A Wicca, como a conhecemos, surgiu na Inglaterra em meados do século XX. Ela se inspira em deuses, símbolos e festas antigas, mas não é uma continuação direta de nenhuma religião da Antiguidade.
Existiu uma religião única da Deusa em toda a Pré-História?
Essa ideia foi popular no século XX, mas a maioria dos historiadores e arqueólogos hoje a vê com muita cautela. Havia, sim, muitas deusas e figuras femininas sagradas, em culturas bem diferentes entre si.
As bruxas perseguidas na Europa praticavam uma religião pagã antiga?
Essa foi a tese de Margaret Murray, em 1921. Ronald Hutton mostra que os historiadores a rejeitaram: os registros dos processos não comprovam a existência de um culto pagão organizado por trás das acusações.
Por que vocês dizem “cerca de” em tantas datas?
Porque as datas antigas costumam ser estimativas, baseadas em camadas arqueológicas, datação por carbono e listas de reis que nem sempre batem.
Os antigos chamavam a própria prática de “magia”?
Raramente. Segundo Fritz Graf, a palavra servia sobretudo para rotular práticas alheias ou suspeitas. Só em textos mais tardios, como os papiros mágicos greco-egípcios, alguns praticantes assumem o termo para si.
Mini-glossário
- Āšipu: especialista mesopotâmico em rituais de cura e proteção, às vezes traduzido como “exorcista”.
- Heka: no Egito, a força divina que criou o mundo e também a prática mágica que a utiliza.
- Oráculo: lugar, pessoa ou resposta por meio da qual se buscava a orientação dos deuses.
- Grimório: livro de instruções mágicas, com orações, selos e procedimentos.
- Hierofania: termo de Mircea Eliade para a manifestação do sagrado em algo do mundo.
Bibliografia
ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
ELIADE, Mircea. História das crenças e das ideias religiosas. 3 v. Rio de Janeiro: Zahar, 2010–2011.
GRAF, Fritz. Magic in the Ancient World. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1997.
HUTTON, Ronald. The Triumph of the Moon: A History of Modern Pagan Witchcraft. Oxford: Oxford University Press, 1999.
MURRAY, Margaret. The Witch-Cult in Western Europe. Oxford: Clarendon Press, 1921.
