Num morro de calcário no sudeste da Turquia, a cerca de 15 quilômetros da cidade de Şanlıurfa, há pilares de pedra em forma de T com até 5,5 metros de altura. Alguns têm braços e mãos esculpidos. Outros trazem raposas, serpentes, javalis e abutres em relevo. Foram erguidos por caçadores-coletores entre cerca de 9600 e 8200 a.C., segundo a UNESCO, milhares de anos antes da escrita, da cerâmica e das primeiras cidades.
Este post abre a série em ordem cronológica. Ele faz parte do mapa apresentado em Magia e espiritualidade nas civilizações antigas: um mapa para começar.
Como o sítio foi encontrado
O lugar aparece pela primeira vez num levantamento feito em 1963 por uma equipe das universidades de Istambul e de Chicago. No relatório, publicado em 1980, o arqueólogo Peter Benedict descreveu montículos de terra vermelha cobertos de lascas de sílex e registrou quase 3 mil peças.
Em 1994, o arqueólogo alemão Klaus Schmidt visitou o morro. Ele tinha trabalhado em Nevalı Çori, outro sítio da região onde já haviam aparecido pilares em T, e reconheceu os sinais. As escavações começaram em 1995, com o Museu de Şanlıurfa e o DAI, o Instituto Arqueológico Alemão. Schmidt dirigiu os trabalhos até morrer, em 2014. Depois, a equipe passou a ser coordenada pelo arqueólogo Lee Clare. Em 2018, Göbekli Tepe entrou na Lista do Patrimônio Mundial da UNESCO.
O que existe lá
O nome, em turco, quer dizer “colina da barriga” (ou do umbigo), de göbek. O morro é um tell, uma elevação formada pelo acúmulo de construções e entulho ao longo de séculos.
A fase mais antiga, que os arqueólogos chamam de Camada III, pertence ao Neolítico Pré-Cerâmico A (PPNA, na sigla em inglês), entre cerca de 9600 e 8700 a.C. Dela vêm os grandes recintos circulares ou ovais. Cada um tem um anel de pilares ligados por muros e bancos de pedra, com dois pilares maiores no centro. Os pesquisadores escavaram recintos que batizaram com letras, de A a H, e uma prospecção geofísica sugeriu que pode haver pelo menos 20 deles no morro. Na fase seguinte, a Camada II, do Neolítico Pré-Cerâmico B, aparecem construções retangulares menores, com pilares mais baixos ou sem pilares.
O recinto D é o maior e o mais bem preservado. Quando a equipe chegou ao piso, em 2009, os dois pilares centrais surgiram inteiros, com cerca de 5,5 metros. Ambos têm braços dobrados e mãos que se encontram sobre o ventre, um cinto decorado e uma espécie de tanga pendurada abaixo dele. O pilar 18, o do lado leste, parece carregar uma raposa sob o braço direito.
Os animais nas pedras
As figuras nos pilares são quase todas de animais selvagens. Há raposas, serpentes, escorpiões, javalis, auroques (o boi selvagem, hoje extinto), gazelas, asnos selvagens e muitas aves. A lista vem do artigo publicado em 2012 na revista Antiquity por Oliver Dietrich, Klaus Schmidt e colegas. No recinto D, raposas e serpentes predominam. Num dos pilares desse recinto, o pilar 43, aparece um abutre de asas abertas ao lado de outras figuras, e Schmidt, no livro de 2006, o ligou a ideias sobre a morte.
Não há plantas cultivadas nem animais domésticos nas imagens. No solo, a arqueologia achou ossos de caça e cereais ainda selvagens.
Para Schmidt, os pilares em T eram figuras humanas estilizadas, talvez seres de outro mundo, ancestrais ou divindades. Os braços, as mãos e os cintos mostram que eram corpos. Quem eram essas figuras, ninguém sabe. Lee Clare, num texto do blog do DAI, escreveu que a identidade dessas figuras devia ser bem conhecida por quem as esculpiu e que os animais fazem parte de narrativas que hoje não conseguimos ler.
“Primeiro templo”: a ideia de Schmidt
Klaus Schmidt defendeu que Göbekli Tepe era um santuário de montanha, um lugar de encontro onde grupos de caçadores-coletores de toda a região se reuniam para cerimônias. No livro de 2006, publicado em alemão como Sie bauten die ersten Tempel (“Eles construíram os primeiros templos”), ele levou a ideia ao grande público.
O artigo de 2012 na Antiquity acrescentou um ponto: erguer pilares de várias toneladas exigia muita gente trabalhando junto, e essa gente precisava comer. A equipe interpretou os ossos de animais quebrados e as grandes vasilhas de pedra como sinais de banquetes. Os autores levantaram a hipótese de que alguns desses recipientes tivessem servido para fermentar cereais selvagens e fazer uma espécie de cerveja. Ainda não há prova química direta disso.
Isso ajudou a tornar o sítio famoso. A visão mais comum dizia que primeiro surgiram a agricultura e as aldeias, e só depois os grandes templos. Em Göbekli Tepe, a arquitetura monumental aparece antes da agricultura. Em entrevista à revista Smithsonian, em 2008, Schmidt resumiu assim: “primeiro veio o templo, depois a cidade”.
A ideia conversa com a obra de Jacques Cauvin. Em The Birth of the Gods and the Origins of Agriculture, o arqueólogo francês já defendia que, no Oriente Próximo, uma mudança no mundo simbólico, que ele chamou de “revolução dos símbolos”, aconteceu antes da domesticação de plantas e animais e ajudou a provocá-la. Göbekli Tepe passou a ser citado como exemplo da tese.
O que mudou nas pesquisas recentes
Entre 2015 e 2019, a equipe do DAI abriu sondagens profundas e revisou duas décadas de registros. Lee Clare publicou um resumo desse trabalho em 2020, nos e-Forschungsberichte des DAI, os relatórios eletrônicos do instituto. Ele mesmo diz que os resultados levam a revisar a imagem popular de Göbekli Tepe como lar dos “primeiros templos do mundo”.
Os novos dados mostram casas, lareiras, pedras de moer e muitos objetos do dia a dia. Algumas das construções retangulares, antes vistas como pequenos santuários tardios, parecem ter sido moradias. A equipe encontrou também uma grande cisterna escavada na rocha e canais para coletar água da chuva. Hoje, o próprio DAI descreve o lugar como um assentamento com um forte componente ritual. A UNESCO, no texto da inscrição, também menciona estruturas que parecem domésticas ao lado dos recintos monumentais.
Os recintos com pilares continuam sendo extraordinários e continuam tendo um uso ritual provável. A mudança está no cenário: em vez de um santuário isolado onde ninguém morava, os pesquisadores veem uma comunidade que vivia ali e construía esses espaços especiais no meio do próprio povoado.
O arqueólogo Ian Hodder, que estudou Çatalhöyük, outro grande sítio neolítico da Turquia, reuniu pesquisadores em Religion at Work in a Neolithic Society. O livro trata da religião neolítica misturada à vida diária, às casas e aos mortos. As novas leituras de Göbekli Tepe vão na mesma direção.
O que sabemos e o que não sabemos
Sabemos quando os recintos foram erguidos, como eram construídos, que animais aparecem nos pilares e o que as pessoas comiam. Não sabemos que língua falavam, como chamavam as figuras dos pilares nem que histórias contavam sobre elas. Não há escrita. Toda resposta sobre deuses ou rituais é interpretação a partir de pedras, ossos e sementes.
A próxima etapa da série desce para a Mesopotâmia, onde a escrita surgiu milhares de anos depois e a magia passou a ser registrada em tabuinhas de argila. Quem quiser comparar as categorias usadas para falar de rito e magia pode ler os diferentes tipos de magia.
Tira-dúvidas
Quem construiu os pilares?
Comunidades de caçadores-coletores do Neolítico Pré-Cerâmico, que ainda não cultivavam plantas domesticadas nem criavam animais. As pesquisas recentes do DAI indicam que pelo menos parte dessas pessoas morava no próprio local.
Então era ou não um templo?
Os arqueólogos do DAI hoje preferem falar em assentamento com forte componente ritual. A palavra “templo” vem da interpretação de Klaus Schmidt e ainda aparece muito na imprensa.
Os pilares representam deuses?
Ninguém sabe. Eles têm braços, mãos e cintos, o que mostra que são figuras humanas estilizadas. Schmidt pensava em seres sobrenaturais ou ancestrais, mas sem escrita não há como confirmar quem eram.
Mini-glossário
- Tell: morro artificial formado por camadas de construções e entulho acumuladas ao longo do tempo.
- Neolítico Pré-Cerâmico: fase do início do Neolítico no Oriente Próximo, anterior ao uso de vasos de cerâmica, dividida em A (PPNA) e B (PPNB).
- Pilar em T: bloco de calcário com topo horizontal, em forma de T, característico de Göbekli Tepe e de sítios vizinhos.
- Recinto: construção circular ou oval formada por pilares ligados por muros e bancos, com dois pilares centrais.
- Auroque: boi selvagem, ancestral do gado doméstico, extinto no século XVII.
Bibliografia
CAUVIN, Jacques. The Birth of the Gods and the Origins of Agriculture. Tradução de Trevor Watkins. Cambridge: Cambridge University Press, 2000. Original: Naissance des divinités, naissance de l’agriculture. Paris: CNRS, 1994.
CLARE, Lee. Göbekli Tepe, Turkey. A brief summary of research at a new World Heritage Site (2015–2019). e-Forschungsberichte des DAI, fasc. 2, 2020, p. 1–13. DOI: 10.34780/efb.v0i2.1012.
DIETRICH, Oliver; HEUN, Manfred; NOTROFF, Jens; SCHMIDT, Klaus; ZARNKOW, Martin. The role of cult and feasting in the emergence of Neolithic communities. New evidence from Göbekli Tepe, south-eastern Turkey. Antiquity, v. 86, n. 333, 2012, p. 674–695.
HODDER, Ian (org.). Religion at Work in a Neolithic Society: Vital Matters. Cambridge: Cambridge University Press, 2014.
SCHMIDT, Klaus. Göbekli Tepe, Southeastern Turkey. A preliminary report on the 1995–1999 excavations. Paléorient, v. 26, n. 1, 2000, p. 45–54.
SCHMIDT, Klaus. Göbekli Tepe: A Stone Age Sanctuary in South-Eastern Anatolia. Berlim: ex oriente, 2012. Original: Sie bauten die ersten Tempel. Munique: C. H. Beck, 2006.
UNESCO. Göbekli Tepe. World Heritage List, n. 1572, 2018. Disponível em: https://whc.unesco.org/en/list/1572/.
