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Astrologia

Sol em Escorpião: a temporada, o mito de Órion e a primavera do sul

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Céu noturno com a constelação de Escorpião em estrelas douradas, Sol baixo no horizonte sobre a água e uma vela preta acesa entre folhas outonais.

Na sexta-feira, 23 de outubro de 2026, às 6h38 (horário de Brasília), o Sol chega à longitude eclíptica de 210° e começa, na astrologia tropical, a temporada de Escorpião. Ela vai até 22 de novembro, às 4h23, quando o Sol entra em Sagitário. O texto explica o ingresso, a diferença entre signo e constelação, a origem da imagem do escorpião no céu e como uma simbologia nascida no outono do norte se lê onde outubro é primavera.

O panorama do mês está no Céu de outubro de 2026.

O que é uma temporada solar

Ao longo do ano, visto da Terra, o Sol percorre uma linha no céu chamada eclíptica. A astrologia ocidental divide essa linha em doze trechos iguais de 30°, os signos, contados a partir do equinócio de março. Esse sistema se chama zodíaco tropical, porque está preso às estações e não às estrelas.

Escorpião é o trecho de 210° a 240°. Calculei o momento do ingresso com a biblioteca Skyfield, as efemérides DE421 do JPL e a eclíptica da data: 23/10/2026, às 6h37min56s BRT, o que arredonda para as 6h38 usadas no panorama de outubro do site.

Signo e constelação são coisas diferentes

O signo e a constelação de Escorpião têm o mesmo nome e, hoje, ocupam lugares diferentes do céu. A diferença vem da precessão dos equinócios, o movimento lento do eixo da Terra que desloca o ponto de partida do zodíaco tropical em relação às estrelas, cerca de 1° a cada 72 anos.

Com os limites oficiais das constelações da União Astronômica Internacional, calculei a passagem do Sol nesta época. Em 31/10, às 11h40 BRT, ele sai de Virgem e entra em Libra. Em 23/11, às 14h27, chega à constelação de Escorpião. Em 30/11, às 2h40, passa para Ofiúco, o Serpentário, e só em 18/12, às 10h06, alcança Sagitário.

No dia do ingresso no signo, o Sol ainda está entre as estrelas de Virgem, e na constelação de Escorpião ele fica pouco mais de seis dias. Para a astrologia tropical, o signo marca uma fase do ano solar, ligada às estações.

O escorpião que matou Órion

Os gregos contavam várias versões do mito. Numa versão atribuída a Hesíodo e preservada nos Catasterismos atribuídos a Eratóstenes, o caçador Órion ameaça matar todos os animais da Terra. A Terra faz surgir um escorpião enorme, que o pica e o mata. Zeus, a pedido de Ártemis e de Leto, coloca Órion entre as estrelas, e o escorpião também.

O romano Higino, na Astronomia (2.26), repete a história: Órion se gaba diante de Diana e Latona de poder matar tudo o que a terra produz. Ovídio, nos Fastos (5.537 a 544), muda o papel do caçador. O escorpião enviado pela Terra ataca Latona, e Órion se põe na frente para defendê-la. Como prêmio, Latona o coloca entre as estrelas.

Arato, nos Fenômenos (634 a 646), do século III a.C., conta outra versão, em que Ártemis manda o escorpião porque Órion a ofendeu na ilha de Quios.

Duas constelações que não se encontram

Os mitos explicam algo que qualquer pessoa pode ver. Escorpião e Órion ficam em lados quase opostos do céu. Arato escreveu que, quando o Escorpião nasce no leste, Órion foge no extremo oeste. Higino diz o mesmo: quando Escorpião nasce, Órion se põe.

Em São Paulo, na noite de 23 de outubro, dá para conferir. Antares, a estrela vermelha do coração do Escorpião, se põe a oeste às 21h20. Rigel, o pé de Órion, nasce a leste às 20h55, e Betelgeuse, o ombro, às 22h03 (Skyfield, BRT). Por uns 25 minutos as duas ficam bem baixas, cada uma num horizonte; depois o escorpião some e o caçador sobe. Nas madrugadas dessa semana, Órion também traz o radiante das Orionídeas.

A origem babilônica

A figura do escorpião no céu é bem mais antiga que os gregos. Na Mesopotâmia, a constelação se chamava MUL.GIR.TAB, “a estrela do Escorpião”, e aparece no compêndio MUL.APIN. Francesca Rochberg, em The Heavenly Writing, mostra como essas constelações e o caminho da Lua e dos planetas entre elas serviram de base aos presságios celestes babilônicos, depois recebidos pelos gregos.

Na tabuinha IX da Epopeia de Gilgamesh, na tradução de Andrew George, o herói chega ao monte Mashu, onde o Sol nasce e se põe, e encontra um casal de homens-escorpião que guarda o portão do caminho do Sol. Eles são tão terríveis que olhar para eles é a morte.

Quando Libra eram as garras

Por muito tempo, os gregos não tinham uma constelação da Balança. As estrelas de Libra eram as Chēlai, “as Garras” do Escorpião. Arato fala das Garras e não de uma balança, e Higino explica que o signo de Escorpião, por ser tão grande, foi dividido em dois, e que os romanos chamaram uma das partes de Libra.

Os babilônios já chamavam esse trecho de Balança, zibānītu em acádio, nome que no MUL.APIN equivale às garras do Escorpião, e não ao corpo de MUL.GIR.TAB. O grego “Garras” e o latino “Balança” convivem nos textos antigos por séculos.

Primavera aqui, outono lá

Grande parte da simbologia tradicional de Escorpião, ligada à morte, ao fim e à transformação, foi escrita no hemisfério norte, onde a temporada cai no outono. É também a época do Samhain irlandês e, mais tarde, do Dia de Finados no calendário cristão.

No Brasil, outubro e novembro são primavera: dias mais longos, mais calor, muitas árvores em flor e, em boa parte do país, o começo das chuvas.

Essa associação com morte e transformação nasce do calendário do norte, e não de algo observado no céu. Quem quiser manter o tema no sul pode apoiá-lo na primavera local: matéria que se decompõe e alimenta o solo, e a vegetação que volta a crescer. O escorpião, como animal, continua ligado ao chão e ao calor. Fica aqui como interpretação, sem caráter de previsão.

Tira-dúvidas

Por que o Sol entra em Escorpião em 23 de outubro e não em 23 de novembro?

Porque o signo tropical é contado a partir do equinócio de março. A constelação de Escorpião, por causa da precessão, só recebe o Sol em 23 de novembro de 2026, às 14h27 BRT.

O Sol passa por Ofiúco?

Sim, segundo os limites das constelações adotados pela União Astronômica Internacional e publicados em 1930 (Eugène Delporte). Em 2026, o Sol entra em Ofiúco em 30 de novembro, às 2h40 BRT, e segue até 18 de dezembro. Ofiúco é uma constelação atravessada pela eclíptica; nunca foi um dos doze signos do zodíaco tropical, contado a partir do equinócio de março. A diferença entre signos e constelações cresce com a precessão.

Órion e Escorpião nunca aparecem juntos no céu?

Quase nunca. Ficam em lados opostos, e em São Paulo, na noite de 23/10, Antares se põe 25 minutos depois do nascer de Rigel, ambas rentes ao horizonte.

De onde vem a ideia de que Escorpião é o signo da morte?

Em boa parte, do lugar do signo no calendário do hemisfério norte, onde a temporada cai no outono. Aqui no sul, ela cai na primavera.

Mini-glossário

  • Eclíptica: o caminho aparente do Sol no céu ao longo do ano.
  • Zodíaco tropical: a divisão da eclíptica em doze signos de 30°, contados a partir do equinócio de março.
  • Precessão: o movimento lento do eixo da Terra que desloca os signos em relação às constelações.
  • Antares: a estrela vermelha mais brilhante da constelação de Escorpião, no lugar do coração do animal.
  • Chēlai: “as Garras”, nome grego das estrelas que depois formaram a constelação de Libra.

Bibliografia

ARATO. Phaenomena. In: CALLIMACHUS; LYCOPHRON; ARATUS. Hymns and Epigrams. Lycophron: Alexandra. Aratus: Phaenomena. Trad. A. W. Mair e G. R. Mair. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1921. (Loeb Classical Library, 129).

GEORGE, Andrew (trad.). The Epic of Gilgamesh. Londres: Penguin, 1999.

HARD, Robin (trad.). Constellation Myths: With Aratus’s Phaenomena. Eratóstenes e Higino. Oxford: Oxford University Press, 2015. (Oxford World’s Classics).

OVÍDIO. Fasti. Tradução de James G. Frazer. 2. ed. rev. por G. P. Goold. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1989. (Loeb Classical Library, 253).

RHODES, Brandon. Skyfield: elegant astronomy for Python. Disponível em: https://rhodesmill.org/skyfield/. Efemérides DE421, NASA/JPL.

ROCHBERG, Francesca. The Heavenly Writing. Cambridge: Cambridge University Press, 2004.