Odu Ofun
O Grande Ventre da Criação e o Mistério do Branco
Ofun — conhecido no sistema de Ifá como Ofun Meji ou Orangun — é o décimo Odu no jogo de búzios (Merindilogun) e o décimo sexto na ordem de chegada de Ifá (Opele Ifá). Representado por dez conchas abertas e seis fechadas, este Odu é considerado o mais velho e misterioso de todos os Odus. Ele simboliza o útero materno original, a ancestralidade máxima, a ressurreição e a pureza absoluta da cor branca. É o Odu da criação do universo, onde todas as coisas nascem e para onde tudo retorna.
Significado Geral
Ofun é um Odu de extrema magnitude, respeito e segredo. Ele representa a sabedoria acumulada pelos anos, os mistérios da vida e da morte e a autoridade dos anciãos. Quando Ofun se manifesta no oráculo, todo o terreiro ou ambiente de consulta deve se curvar ou saudar sua presença, tamanha é a sua senioridade.
Na sua fase positiva (Aláfia), Ofun é prenúncio de longevidade, restauração da saúde após doenças terminais, riqueza duradoura, nascimento de filhos e proteção contra qualquer tipo de feitiçaria. Ele traz a vitória através do silêncio, da paciência e da sabedoria. Na sua fase negativa (Ono), ele alerta para a cegueira espiritual, a teimosia destrutiva, problemas graves no ventre (como miomas e tumores), a morte súbita de pessoas idosas na família e o perigo de perdas financeiras brutais motivadas por ganância ou desrespeito aos preceitos sagrados.
Dados Esotéricos e Elementos
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Representação Esotérica: Uma grande cabaça branca fechada (Igbá), um círculo de giz (efun) ou o ventre de uma mulher grávida.
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Sentido Cardeal: Sudoeste.
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Sexo: Feminino.
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Elemento: Ar sobre a Terra (a brisa que purifica o solo e o sopro divino que dá vida à matéria).
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Partes do Corpo Regidas: O ventre, o útero, o estômago, os intestinos e os olhos.
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Símbolos: O pó de efun, o pano branco (ala), o marfim e o cajado de Oxalá (opaxorô).
Regentes e Orixás que Falam por este Odu
Ofun é o Odu da alvura e da criação, estando sob a influência das divindades mais antigas do panteão:
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Oxalá (Oxalufan): O regente principal deste Odu. Traz a paz suprema, a velhice honrada, a paciência e a sabedoria para guiar os passos na Terra.
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Oduduwa: Manifesta-se como o senhor do mistério da criação e da terra, exigindo respeito aos fundamentos mais profundos do Axé.
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Iemanjá e Nanã: Atuam na proteção do ventre das mulheres, regendo a fertilidade e a ligação com os antepassados.
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Exu: Embora Ofun seja o Odu do branco, Exu atua como o executor das penalidades quando os rígidos Ewós deste Odu são quebrados.
Traços de Personalidade (Os Filhos de Ofun)
As pessoas nascidas sob a regência de Ofun possuem uma personalidade densa, sábia e muitas vezes reservada.
Aspectos Positivos
São indivíduos extremamente inteligentes, observadores, intuitivos e portadores de uma autoridade natural. São conselheiros natos e costumam exercer forte influência sobre as pessoas ao seu redor. Valorizam a tradição, o respeito aos mais velhos e possuem grande capacidade de liderança espiritual. São resilientes e conseguem se reerguer após grandes quedas.
Aspectos Negativos
Podem ser excessivamente teimosos, orgulhosos e inflexíveis. Têm a tendência a guardar muitos segredos e a se isolarem do mundo. Muitas vezes mostram-se ranzinzas, autoritários e impacientes com a juventude ou com a rapidez alheia. Sofrem com dores no corpo e têm uma inclinação natural à melancolia ou ao cansaço mental quando contrariados.
Proibições e Preceitos (Ewós)
Ofun é o Odu que possui as proibições mais severas de todo o sistema divinatório. O desrespeito aos seus Ewós pode acarretar cegueira, loucura ou morte súbita:
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Restrições Alimentares: É terminantemente proibido o consumo de azeite de dendê (epô), vinho de palma e sal em excesso fora dos contextos rituais específicos. Não devem comer carne de porco, caranguejo e milho assado.
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Comportamento e Vestuário: Não devem usar roupas vermelhas, pretas ou de cores berrantes, dando preferência absoluta ao branco. É proibido mentir ou praticar qualquer tipo de injustiça sob a regência deste Odu.
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Ações Proibidas: Não se deve carregar fardos pesados sobre os ombros ou cabeça. É proibido pular ou passar por cima de pessoas deitadas no chão. O consulente nunca deve soprar cinzas ou fogo, pois isso afugenta o Axé de Ofun.
Rituais de Limpeza e Atenção
Quando Ofun se manifesta no jogo de búzios, o ambiente exige silêncio e respeito absoluto. O sacerdote deve atuar com calma e precisão para equilibrar as energias:
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Defumação: Utiliza-se folhas de algodoeiro secas, sálvia e incenso de mirra para purificar o ambiente e atrair a paz de Oxalá.
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Banho de Folhas: Banho de folhas de boldo (Tapete de Oxalá), algodoeiro e manjericão branco, preparados em água fria e do pescoço para baixo, para acalmar o Ori.
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Agradecimento/Oferenda de Alívio: Oferecer a Oxalá 10 acaçás brancos feitos com carinho, 10 velas brancas, 10 moedas correntes e uma tigela de canjica branca cozida sem sal e sem dendê. Passa-se o pó de efun nas pálpebras do consulente para clarear sua visão espiritual. Os elementos são passados levemente pelo corpo e entregues aos pés de uma árvore frondosa ou em um local alto e limpo, coberto com um pano branco.
Lenda (Itan) de Ofun
No princípio de todas as coisas, quando Olodumare decidiu criar o universo, o mundo era apenas uma grande massa escura, vazia e sem forma. Todos os Odus estavam recolhidos no Orum (céu), esperando a ordem divina para descerem e organizarem a Terra.
Olodumare então chamou Ofun, o mais velho de todos os Odus, e lhe entregou uma cabaça branca fechada (Igbá) que continha o pó de efun (o giz sagrado branco). Olodumare disse: "Vá até o vazio e sopre o conteúdo desta cabaça. Onde o pó branco cair, a vida e a ordem nascerão".
Ofun desceu até o grande vazio e, com um sopro majestoso, espalhou o pó de efun. Imediatamente, a escuridão foi dissipada pela luz da alvura. A poeira branca assentou-se e transformou-se no solo fértil, nas montanhas e nas nuvens. Da brancura do efun, nasceu a paz e a inteligência necessária para que os homens e os Orixás pudessem habitar o mundo.
Quando os outros Odus desceram e viram a grandiosidade da obra de Ofun, ficaram maravilhados e compreenderam que, sem a sabedoria e a pureza do mais velho, o mundo continuaria no caos e na escuridão.
Por essa razão, ficou determinado que sempre que Ofun falasse no oráculo, todos os presentes deveriam se levantar e saudar o Odu da criação, reconhecendo que dele veio a luz que permitiu a existência de todas as coisas.