Odu Ofun

Escrito por Allan Lima.

O Grande Ventre da Criação e o Mistério do Branco

Ofun — conhecido no sistema de Ifá como Ofun Meji ou Orangun — é o décimo Odu no jogo de búzios (Merindilogun) e o décimo sexto na ordem de chegada de Ifá (Opele Ifá). Representado por dez conchas abertas e seis fechadas, este Odu é considerado o mais velho e misterioso de todos os Odus. Ele simboliza o útero materno original, a ancestralidade máxima, a ressurreição e a pureza absoluta da cor branca. É o Odu da criação do universo, onde todas as coisas nascem e para onde tudo retorna.


Significado Geral

Ofun é um Odu de extrema magnitude, respeito e segredo. Ele representa a sabedoria acumulada pelos anos, os mistérios da vida e da morte e a autoridade dos anciãos. Quando Ofun se manifesta no oráculo, todo o terreiro ou ambiente de consulta deve se curvar ou saudar sua presença, tamanha é a sua senioridade.

Na sua fase positiva (Aláfia), Ofun é prenúncio de longevidade, restauração da saúde após doenças terminais, riqueza duradoura, nascimento de filhos e proteção contra qualquer tipo de feitiçaria. Ele traz a vitória através do silêncio, da paciência e da sabedoria. Na sua fase negativa (Ono), ele alerta para a cegueira espiritual, a teimosia destrutiva, problemas graves no ventre (como miomas e tumores), a morte súbita de pessoas idosas na família e o perigo de perdas financeiras brutais motivadas por ganância ou desrespeito aos preceitos sagrados.


Dados Esotéricos e Elementos


Regentes e Orixás que Falam por este Odu

Ofun é o Odu da alvura e da criação, estando sob a influência das divindades mais antigas do panteão:


Traços de Personalidade (Os Filhos de Ofun)

As pessoas nascidas sob a regência de Ofun possuem uma personalidade densa, sábia e muitas vezes reservada.

Aspectos Positivos

São indivíduos extremamente inteligentes, observadores, intuitivos e portadores de uma autoridade natural. São conselheiros natos e costumam exercer forte influência sobre as pessoas ao seu redor. Valorizam a tradição, o respeito aos mais velhos e possuem grande capacidade de liderança espiritual. São resilientes e conseguem se reerguer após grandes quedas.

Aspectos Negativos

Podem ser excessivamente teimosos, orgulhosos e inflexíveis. Têm a tendência a guardar muitos segredos e a se isolarem do mundo. Muitas vezes mostram-se ranzinzas, autoritários e impacientes com a juventude ou com a rapidez alheia. Sofrem com dores no corpo e têm uma inclinação natural à melancolia ou ao cansaço mental quando contrariados.


Proibições e Preceitos (Ewós)

Ofun é o Odu que possui as proibições mais severas de todo o sistema divinatório. O desrespeito aos seus Ewós pode acarretar cegueira, loucura ou morte súbita:


Rituais de Limpeza e Atenção

Quando Ofun se manifesta no jogo de búzios, o ambiente exige silêncio e respeito absoluto. O sacerdote deve atuar com calma e precisão para equilibrar as energias:


Lenda (Itan) de Ofun

No princípio de todas as coisas, quando Olodumare decidiu criar o universo, o mundo era apenas uma grande massa escura, vazia e sem forma. Todos os Odus estavam recolhidos no Orum (céu), esperando a ordem divina para descerem e organizarem a Terra.

Olodumare então chamou Ofun, o mais velho de todos os Odus, e lhe entregou uma cabaça branca fechada (Igbá) que continha o pó de efun (o giz sagrado branco). Olodumare disse: "Vá até o vazio e sopre o conteúdo desta cabaça. Onde o pó branco cair, a vida e a ordem nascerão".

Ofun desceu até o grande vazio e, com um sopro majestoso, espalhou o pó de efun. Imediatamente, a escuridão foi dissipada pela luz da alvura. A poeira branca assentou-se e transformou-se no solo fértil, nas montanhas e nas nuvens. Da brancura do efun, nasceu a paz e a inteligência necessária para que os homens e os Orixás pudessem habitar o mundo.

Quando os outros Odus desceram e viram a grandiosidade da obra de Ofun, ficaram maravilhados e compreenderam que, sem a sabedoria e a pureza do mais velho, o mundo continuaria no caos e na escuridão.

Por essa razão, ficou determinado que sempre que Ofun falasse no oráculo, todos os presentes deveriam se levantar e saudar o Odu da criação, reconhecendo que dele veio a luz que permitiu a existência de todas as coisas.

Social Comments

Imprimir